Uma proteína mais conhecida pelo seu papel na doença de Parkinson poderá ajudar a explicar porque é que as mulheres representam cerca de dois terços dos casos de Alzheimer, segundo uma nova investigação.
Investigadores da Mayo Clinic, nos EUA, estudaram um grupo de 415 pessoas, incluindo indivíduos cognitivamente saudáveis e outros com défice cognitivo ligeiro ou demência, para identificar biomarcadores da doença.
Nas pessoas que apresentavam alfa-sinucleína anormal no líquido cefalorraquidiano e sinais de alterações cerebrais associadas ao Alzheimer em exames PET, essas alterações cerebrais estavam a ocorrer até 20 vezes mais depressa nas mulheres do que nos homens.
Em concreto, as alterações cerebrais avaliadas neste estudo foram a acumulação nociva de uma proteína chamada tau, característica de cérebros afetados pelo Alzheimer e por outras doenças neurológicas. As mulheres com alfa-sinucleína anormal revelaram o aumento mais rápido de tau ao longo do tempo, o que aponta para uma possível diferença biológica.
Os resultados sugerem que a alfa-sinucleína mal dobrada poderá funcionar como um acelerador em alguns casos de Alzheimer, podendo no futuro ajudar os investigadores a desenvolver ensaios clínicos e tratamentos mais direcionados.
"Quando observamos alterações relacionadas com a doença a evoluir a ritmos dramaticamente diferentes, não podemos continuar a abordar o Alzheimer como se se comportasse exatamente da mesma forma em toda a gente", afirma a neurorradiologista Kejal Kantarci. "As co-patologias podem influenciar o processo da doença."
Tanto a alfa-sinucleína como a tau são proteínas produzidas naturalmente e desempenham funções na manutenção da saúde cerebral. Os problemas surgem quando começam a falhar e a desviar-se do seu comportamento normal, embora ainda não seja claro se são causas ou consequências da doença.
Cerca de metade dos doentes com Alzheimer apresentam proteínas de alfa-sinucleína anormais e mal dobradas no cérebro, embora este problema específico seja muito mais relevante na doença de Parkinson e nas demências associadas ao Parkinson, onde se acredita que seja um dos principais motores da doença.
Os investigadores controlaram vários fatores, incluindo a idade e o risco genético, para tentar isolar a ligação entre estas duas proteínas – embora outros elementos ainda não considerados também possam estar a influenciar os resultados.
O facto de a associação entre a alfa-sinucleína mal dobrada e um aumento mais rápido da tau nociva só ter sido observada em mulheres sugere que existe algo a acontecer a nível biológico que não se verifica nos homens, e descobrir o que é poderá melhorar a nossa compreensão do Alzheimer.
"Isto abre uma direção completamente nova para compreender porque é que as mulheres suportam uma carga desproporcionada de demência", diz o neurocientista Elijah Mak.
A equipa tem algumas hipóteses sobre o que poderá estar por detrás deste efeito, embora essas ideias ainda tenham de ser testadas. Uma descida mais acentuada e súbita dos níveis de estrogénio nas mulheres em fases mais tardias da vida poderá ser um fator, uma vez que o estrogénio pode atuar como uma proteção contra a acumulação de proteínas tóxicas.
Outra possibilidade é que as proteínas de alfa-sinucleína disfuncionais atuem como um "amplificador de segundo impacto", aumentando a inflamação no cérebro e agravando a aglomeração da tau.
O estudo não prova uma relação de causa e efeito entre os problemas com alfa-sinucleína e tau, e o período mediano de acompanhamento foi relativamente curto – pouco mais de um ano. Estudos mais prolongados poderão oferecer uma imagem mais completa de como estas alterações proteicas moldam o Alzheimer ao longo do tempo.
Ainda assim, cada nova pista ajuda os investigadores a construir uma visão mais clara de como o Alzheimer pode começar e porque é que alguns grupos de pessoas – incluindo as mulheres – têm maior risco de desenvolver a doença.
A equipa sugere ainda que os resultados poderão vir a ser úteis no diagnóstico do Alzheimer, do Parkinson e de demências relacionadas, ajudando a distinguir condições sobrepostas que por vezes se podem mascarar entre si.
"Reconhecer estas diferenças específicas entre os sexos pode ajudar-nos a conceber ensaios clínicos mais direcionados e, no fim de contas, estratégias de tratamento mais personalizadas", afirma Kantarci.
A investigação foi publicada na JAMA Network Open.
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