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Grande estudo sobre Parkinson revela diferenças de sintomas entre homens e mulheres

Médica explica exames cerebrais a casal sénior numa consulta num consultório moderno.

A doença de Parkinson é a perturbação neurológica com crescimento mais rápido, somando mais de 10 milhões de casos em todo o mundo. Na Austrália, estima-se que até 150 000 pessoas vivam atualmente com a doença, e são identificados 50 novos casos por dia.

As projeções indicam que o número de pessoas com Parkinson mais do que triplicará entre 2020 e 2050.

Apesar do enorme impacto na vida de quem tem Parkinson e das suas famílias - e do peso económico considerável, de pelo menos 10 mil milhões de dólares australianos (A$) por ano - continuam a existir lacunas importantes no conhecimento sobre como a doença se manifesta e como progride.

Um estudo recente, de grande dimensão, com quase 11 000 australianos a viver com doença de Parkinson, traz pistas relevantes sobre sintomas, fatores de risco e diferenças entre homens e mulheres. Segue-se o essencial.

Antes de mais: o que é a doença de Parkinson?

A doença de Parkinson é uma doença progressiva em que as células responsáveis por produzir o mensageiro químico dopamina, numa região do cérebro chamada substância negra, começam a morrer. Este processo ocorre em paralelo com múltiplas outras alterações cerebrais.

Tradicionalmente, é descrita como uma doença do movimento. Entre os sintomas motores mais frequentes encontram-se:

  • tremor de repouso
  • lentidão dos movimentos (bradicinesia)
  • rigidez muscular
  • dificuldades de equilíbrio

No entanto, a doença de Parkinson inclui também vários sintomas não motores, menos reconhecidos, que podem abranger:

  • alterações do humor
  • dificuldades de memória e de cognição (incluindo pensamento mais lento, maior dificuldade em planear ou fazer várias tarefas ao mesmo tempo, e problemas em manter a atenção ou a concentração)
  • perturbações do sono
  • disfunção autonómica (como obstipação, tensão arterial baixa e problemas urinários)

Apesar de, por vezes, serem descritos como sintomas “invisíveis”, estes sintomas não motores tendem a ter um impacto negativo na qualidade de vida igual ou até superior ao dos sintomas motores.

O que revela a investigação mais recente?

O estudo recorreu a informação reunida no âmbito do Australian Parkinson’s Genetics Study, liderado pelo QIMR Berghofer Medical Research Institute. Após um estudo-piloto em 2020, o projeto foi lançado em 2022 como um programa de investigação contínuo, de âmbito nacional.

No total, 10 929 australianos com doença de Parkinson responderam a um inquérito e forneceram amostras de saliva para análise genética. Trata-se da maior coorte de Parkinson estudada na Austrália e da maior coorte ativa a nível mundial.

Deste trabalho resultaram vários achados iniciais importantes.

1) Os sintomas não motores são muito frequentes na doença de Parkinson

Os resultados reforçaram como os sintomas não motores são comuns. Entre os mais reportados destacaram-se:

  • perda de olfato (52%)
  • alterações de memória (65%)
  • dor (66%)
  • tonturas (66%)

Um dado particularmente marcante: 96% dos participantes referiram perturbações do sono, como insónia e sonolência diurna.

2) Um retrato mais claro dos fatores de risco

O estudo também contribuiu para compreender melhor o que pode influenciar o risco de doença de Parkinson.

Esta informação é relevante porque ainda não se sabe, por completo, o que desencadeia a morte das células produtoras de dopamina na substância negra.

A idade continua a ser o principal fator de risco. Nesta amostra, a idade média foi:

  • 64 anos no início dos sintomas
  • 68 anos no momento do diagnóstico

3) Genes e ambiente: ambos contam

No estudo, uma em cada quatro pessoas (25%) tinha história familiar de doença de Parkinson. Ainda assim, apenas 10–15% dos casos são causados por - ou estão fortemente associados a - mutações em genes específicos.

É essencial ter presente que as famílias não partilham apenas genes: frequentemente partilham também o mesmo ambiente.

Vários fatores ambientais aumentam igualmente o risco, incluindo a exposição a pesticidas e a lesão cerebral traumática.

Em termos globais, a maioria dos casos (cerca de 85–90%) parece resultar de uma interação complexa entre fatores genéticos, exposições ambientais e o envelhecimento.

O estudo mostrou que as exposições ambientais associadas ao risco eram frequentes:

  • 36% reportaram exposição a pesticidas
  • 16% tinham antecedentes de lesão cerebral traumática
  • 33% trabalharam em ocupações de maior risco (como agricultura, indústria petroquímica ou processamento/metalurgia)

Estas exposições foram significativamente mais elevadas nos homens do que nas mulheres.

4) Diferenças entre sexos na doença de Parkinson

A doença é cerca de 1,5 vezes mais comum nos homens. No novo estudo, 63% dos participantes eram do sexo masculino.

Além da frequência, a doença de Parkinson também pode manifestar-se e evoluir de forma diferente em homens e mulheres.

As mulheres eram, em média, mais novas do que os homens:

  • no início dos sintomas: 63,7 vs. 64,4 anos
  • no diagnóstico: 67,6 vs. 68,1 anos

E apresentavam maior probabilidade de referir:

  • dor (70% vs. 63%)
  • quedas (45% vs. 41%)

Já os homens reportaram mais frequentemente:

  • alterações de memória (67% vs. 61%)
  • comportamentos impulsivos, sobretudo de natureza sexual (56% vs. 19%)

Ainda assim, a maioria dos participantes apresentou ausência de impulsividade ou apenas impulsividade ligeira.

O que ainda não sabemos (e porquê)

Este estudo de grande escala, apoiado num inquérito abrangente, ajuda a compreender melhor a realidade de quem vive com Parkinson na Austrália.

No entanto, continua a ser apenas uma pequena fração do universo potencial: foram convidadas mais de 186 000 pessoas com Parkinson, mas participaram pouco menos de 11 000, o que corresponde a uma taxa de resposta inferior a 6%.

Entre os participantes, 93% tinham ascendência europeia, o que significa que a amostra pode não representar totalmente a diversidade de pessoas com doença de Parkinson.

Além disso, os dados sobre sintomas baseiam-se em autorreferência, o que é inerentemente subjetivo e pode introduzir enviesamentos ou menor fiabilidade quando comparado com medições objetivas da função. Para reduzir esta limitação, os investigadores planeiam recorrer a telemóveis inteligentes e dispositivos vestíveis para recolher informação mais completa.

Por fim, apesar de o estudo oferecer um retrato detalhado da coorte atual, permanece por esclarecer como estes participantes se comparam com pessoas da mesma idade sem Parkinson, e de que forma os sintomas mudam ao longo do tempo.

Estas questões são áreas centrais para investigação futura no âmbito deste projeto em curso.

O que isto significa na prática

Estudos deste tipo são fundamentais para clarificar fatores de risco associados à doença de Parkinson e para descrever, com maior precisão, os sintomas que as pessoas experienciam.

Isto é importante porque a forma como a doença se apresenta varia muito: nem todas as pessoas terão os mesmos sintomas, nem com a mesma intensidade.

Da mesma forma, a evolução ao longo do tempo não é idêntica em todos os doentes. Compreender melhor os fatores que moldam esta variabilidade pode permitir identificar mais cedo quem está em risco e desenhar estratégias de acompanhamento mais personalizadas.

Para além da investigação sobre causas e padrões de progressão, importa sublinhar que a abordagem à doença de Parkinson tende a ser mais eficaz quando é multidisciplinar - combinando terapêutica farmacológica, reabilitação (fisioterapia, terapia da fala e terapia ocupacional) e apoio psicológico, especialmente quando os sintomas não motores interferem com o dia a dia.

Também merece atenção o papel do doente e do cuidador na gestão quotidiana: o controlo de quedas, a monitorização de alterações do sono, a adaptação da alimentação em caso de obstipação e a identificação precoce de alterações do humor são aspetos que, mesmo não sendo “visíveis”, podem fazer uma diferença significativa na qualidade de vida.

Lyndsey Collins-Praino, Professora Associada, Escola de Biomedicina, Universidade de Adelaide

Este artigo é republicado ao abrigo de uma licença Creative Commons. Pode ler o artigo original na publicação de origem.

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