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No fim da vida, muitos idosos com cancro continuam a tomar medicamentos inúteis enquanto os médicos ignoram a situação.

Médica explica medicação a idoso sentado à mesa numa cozinha iluminada.

As pequenas pastilhas brancas chegam num copinho de plástico às 07:00, como sempre. Medicação para a tensão arterial, para o colesterol, protecção gástrica, vitamina D, e o comprimido para dormir que sobrou da noite anterior. No tabuleiro ao lado: meio iogurte e uma mulher que não sai de casa há semanas, com um cancro que, em silêncio, já tomou conta do corpo. A filha olha para a enfermeira e pergunta: “Ela ainda precisa mesmo de tudo isto?” A enfermeira encolhe os ombros, com cuidado. “Está prescrito. Mantemos.”

Ninguém se atreve a dizê-lo de forma directa.

Metade daqueles medicamentos já não vai mudar nada.

Quando o tratamento continua muito depois de a vida ter mudado

Em enfermarias de oncologia e em lares, esta cena repete-se sem alarme. Doentes mais velhos, muitas vezes com cancro avançado, continuam a engolir medicação crónica como se o prognóstico não tivesse mudado. Fármacos para o colesterol para evitar um enfarte que nunca chegará. Comprimidos preventivos pensados para um futuro que, na prática, já não existe.

O corpo abranda; a lista de prescrições, não.

Um estudo francês com doentes oncológicos idosos concluiu que mais de metade ainda tomava pelo menos um medicamento “preventivo” para o qual não se esperava qualquer benefício dentro do tempo de vida restante. Falamos de estatinas, fármacos para a osteoporose, controlo muito rígido da diabetes. Em alguns casos, chegaram mesmo a iniciar-se novas terapêuticas crónicas depois de o cancro já ser conhecido como incurável.

Raramente as famílias questionam. Poucas vezes os médicos param para interromper. O resultado é um estranho teatro: o carrinho da farmácia segue o seu percurso, enquanto o relógio - de forma óbvia - não pára.

Uma parte do problema está no modo como o sistema foi construído: quando um medicamento entra, quase nunca há quem “assuma” a decisão de o retirar. A estatina foi receitada pelo cardiologista. O anticoagulante foi acrescentado pelo médico de família. O oncologista concentra-se na quimioterapia. E cada especialista receia ser a pessoa que suspende algo “essencial”.

A desprescrição (o acto de parar medicação desnecessária) parece simples no papel. Na vida real, pode soar a uma admissão dolorosa: as prioridades mudaram - e as expectativas também.

Como falar em desprescrição sem desistir da pessoa (cancro avançado e medicação preventiva)

O gesto mais útil é, surpreendentemente, básico: sentar-se com a lista completa de medicamentos e perguntar, sem rodeios: “O que é que este comprimido ainda está a fazer por esta pessoa, agora?” Não o que fazia há cinco anos, nem o que “em teoria” previne. O que traz nas próximas semanas ou meses.

As equipas de cuidados paliativos fazem este trabalho com naturalidade. Costumam organizar os fármacos em três grupos: os que são essenciais para o conforto, os que podem ser úteis, e os que já não têm propósito. Depois reduzem gradualmente ou suspendem os do último grupo, um a um, observando mudanças reais - em vez de riscos imaginados.

Muitas famílias têm medo de que parar medicamentos signifique “desistir”. Muitos médicos, antecipando essa reacção, evitam o assunto por completo. E, no entanto, a conversa pode ser simples: “A vida do seu pai é mais curta agora, por isso o nosso objectivo muda: deixamos a prevenção a longo prazo e concentramos-nos em estar o melhor possível hoje.”

Sejamos francos: quase ninguém revê comprimido a comprimido depois de cada TAC, de cada internamento, de cada agravamento. As receitas renovam-se por defeito, porque é mais rápido do que enfrentar a pergunta difícil: “Isto ainda vale a pena engolir?”

Há ainda uma camada que quase ninguém nomeia: culpa. Filhos adultos querem sentir que fizeram “tudo”.

“As famílias estão aterrorizadas com a ideia de que, ao dizerem sim à suspensão de um fármaco, estão a escolher a morte”, disse-me um geriatra de cuidados paliativos. “O que não conseguem ver é quanto esses medicamentos podem roubar aos últimos dias bons.”

Exemplos práticos do que costuma fazer sentido rever

  • Comprimidos para a tensão arterial: muitas vezes podem ser reduzidos se a pessoa está com tonturas, cansaço, ou se tem tensão baixa deitada ou de pé.
  • Medicamentos para o colesterol: regra geral não oferecem benefício a curto prazo quando a esperança de vida é medida em meses, não em anos.
  • Regimes muito rígidos para a diabetes: aliviar objectivos evita hipoglicemias perigosas que levam a quedas e confusão.
  • Vitaminas e suplementos: raramente mudam o desfecho no fim de vida e, ainda assim, podem provocar náuseas ou desconforto ao engolir.
  • Medicação com “conforto em primeiro lugar”: analgésicos, antieméticos, laxantes, fármacos para ansiedade - aqui vale a pena concentrar atenção e energia.

Dois pontos que quase sempre ajudam (e que muitas vezes ficam por dizer)

Uma revisão de medicação funciona melhor quando inclui, além do médico assistente, alguém com tempo e método para olhar para interacções e duplicações - por exemplo, um farmacêutico hospitalar/comunitário, ou um clínico com experiência em geriatria. Não é raro existirem dois fármacos para o mesmo sintoma, doses que deixaram de fazer sentido com perda de peso, ou medicação que passou a causar mais sonolência e quedas do que benefício.

Também é importante combinar, por escrito, o plano de vigilância: o que se espera que melhore ao reduzir ou parar um medicamento (menos tonturas, menos náuseas, mais apetite, menos confusão), e quais os sinais que justificam reavaliar (dor nova, falta de ar, ansiedade, obstipação). Isso transforma a suspensão em cuidado activo - e não num abandono.

Escolher clareza quando toda a gente tem medo de falar claro

A verdade não dita é esta: muitos doentes oncológicos idosos morrem ainda a tomar medicamentos pensados para um futuro que nunca iriam viver. Não por maldade, mas porque o sistema prefere a inércia às conversas difíceis. Parar algo parece uma decisão activa. Continuar parece neutro, quase inocente.

Mas os comprimidos têm custo: mais efeitos secundários, mais interacções, mais confusão, mais tempo gasto a discutir comprimidos quando se podia estar a falar de memórias.

Muitos reconhecem esse momento: entrar num quarto de hospital ou numa sala pouco iluminada e perceber que a rotina já não combina com a realidade. Na folha clínica lê-se “manter medicação habitual”. A pessoa na cama já não é “habitual” há muito.

Aqui, uma pergunta simples pode desfazer a névoa: “Se fosse a minha mãe, eu insistia neste comprimido?” Muitos médicos perguntam isto a si próprios. Bem menos o dizem em voz alta às famílias.

Para quem está do lado de fora, iniciar a conversa pode ser tão pequeno como uma frase: “Podemos rever todos os medicamentos dela e ver quais ainda fazem diferença nesta fase?” Esse pedido obriga a equipa a sair do piloto automático e a agir com intenção. Alguns profissionais recebem-no com alívio. Outros resistem, por hábito ou por medo.

O que costuma surgir dessa revisão não é abandono, mas foco: menos tonturas, menos náuseas, melhor sono, menos comprimidos difíceis de engolir. Não é um milagre. É uma forma mais silenciosa e mais humana de viver os dias que restam.

Ponto-chave Detalhe Valor para quem lê
Perguntar o que cada comprimido ainda faz “agora” Trocar a prevenção a longo prazo por conforto e função a curto prazo Dá um critério simples para questionar medicação crónica perto do fim de vida
Pedir uma revisão completa da medicação Solicitar uma reunião com oncologista, médico de família ou equipa de cuidados paliativos para rever a lista Reduz fármacos inúteis, mantendo os que realmente ajudam
Reenquadrar “parar” como cuidar Explicar que menos comprimidos pode significar menos efeitos secundários e melhores últimas semanas Ajuda famílias e doentes a perceber que não é “desistir”, é priorizar qualidade

Perguntas frequentes

  • Pergunta 1: É seguro parar medicamentos de longa duração quando alguém tem cancro avançado?
    Resposta 1: Muitas vezes, sim - sobretudo os fármacos destinados a prevenir problemas a longo prazo, como enfartes ou AVC que poderiam ocorrer anos mais tarde. O essencial é fazê-lo com ponderação, idealmente com orientação médica e, por vezes, de forma gradual. O objectivo passa a ser aquilo que ajuda de facto nas próximas semanas ou meses.

  • Pergunta 2: Que medicamentos são mais frequentemente inúteis no fim de vida?
    Resposta 2: Exemplos comuns incluem estatinas para o colesterol, medicamentos de reforço ósseo usados a longo prazo, regimes de controlo muito apertado da diabetes, certas vitaminas e suplementos, e aspirina preventiva em pessoas sem eventos cardíacos recentes. Já a medicação de conforto - controlo da dor, antieméticos e laxantes - quase sempre continua a ter grande valor.

  • Pergunta 3: Como falo com o médico sobre desprescrição sem parecer que estou a desistir?
    Resposta 3: Pode dizer: “Queria que nos focássemos no conforto e na qualidade de vida. Podemos rever quais os medicamentos que ainda ajudam nisso e quais poderemos suspender com segurança?” Assim fica claro que não está a recusar cuidados; está a afiná-los.

  • Pergunta 4: E se os médicos não concordarem sobre parar certos medicamentos?
    Resposta 4: Acontece. Pode pedir uma discussão conjunta (reunião de equipa) ou solicitar opinião de cuidados paliativos ou de um especialista em geriatria. Quando há divergências, pedir que expliquem o benefício esperado em horizontes de tempo (dias, semanas, meses, anos) costuma mostrar rapidamente o que ainda faz sentido.

  • Pergunta 5: Parar medicamentos pode encurtar a vida do meu familiar?
    Resposta 5: Para a maioria dos fármacos preventivos, a investigação sugere que suspender perto do fim de vida não altera a sobrevivência e pode até melhorar o bem-estar por reduzir efeitos secundários. O foco muda de “acrescentar dias a qualquer custo” para “melhorar os dias que restam”. Isso não é menos cuidado - é um cuidado diferente.

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