A pequena baga vermelha de um arbusto pouco conhecido, usada há muito na medicina tradicional popular, revelou um potencial notável para recuperar o metabolismo saudável das gorduras e a sensibilidade à insulina num modelo de diabetes em ratinhos.
Estas bagas provêm de Nitraria roborowskii Kom. (NRK), uma espécie que cresce em regiões temperadas e secas do Oeste e Norte da China, bem como na Mongólia e no Irão. O seu uso tradicional levou investigadores a suspeitar que a farmacologia moderna poderia, finalmente, explicar a sua reputação local.
Nitraria roborowskii Kom. (NRK): tradição, contexto e interesse científico
A curiosidade científica não surgiu do nada. Uma planta do mesmo género, Nitraria tangutorum, já tinha demonstrado capacidade para reduzir lípidos e glicose no sangue em modelos animais. Com base nisso, uma equipa liderada por Di Wu, da Universidade de Qinghai (China), avaliou se a NRK poderia produzir efeitos semelhantes - e com que amplitude.
Como foi criado o modelo de diabetes tipo 2 em ratinhos
No total, foram utilizados 80 ratinhos machos, distribuídos aleatoriamente por grupos:
- 14 integraram o grupo de controlo, alimentado com ração normal.
- 65 foram incluídos no grupo de diabetes tipo 2, recebendo uma ração rica em açúcar e gordura e uma injecção de estreptozotocina, usada para eliminar as células produtoras de insulina no fígado (um animal não chegou a participar na fase principal da experiência).
Dentro do conjunto de ratinhos considerados “diabéticos”: - alguns não receberam qualquer tratamento; - outros foram tratados com metformina (um fármaco comum na diabetes); - os restantes receberam doses baixas, médias e altas de extracto concentrado de NRK.
Durante sete semanas, os investigadores acompanharam o peso e a glicemia em jejum. No final desse período, os animais foram abatidos para análise detalhada do sangue e dos órgãos.
Resultados no metabolismo lipídico: triglicéridos, colesterol e LDL-C/HDL-C
As análises confirmaram o que se esperaria num modelo de diabetes: o grupo diabético apresentou aumentos marcados de lípidos no sangue, incluindo:
- triglicéridos (principal componente da gordura corporal),
- colesterol total,
- lipoproteína de baixa densidade-C (LDL-C), frequentemente descrita como “mau colesterol” por, em excesso, contribuir para doença cardiovascular.
Contudo, quando foi administrado extracto concentrado de NRK em dose média a alta, estes valores desceram novamente para níveis mais favoráveis.
Além disso, o modelo diabético reduziu de forma significativa a lipoproteína de alta densidade-C (HDL-C), habitualmente associada ao “bom colesterol”. Essa descida foi revertida nos ratinhos que receberam dose alta de NRK.
Nas palavras dos autores, a perturbação do metabolismo lipídico foi significativamente melhorada.
Nitraria roborowskii Kom. (NRK) e a sensibilidade à insulina: glicemia, tolerância e resistência
O extracto concentrado de NRK também teve impacto relevante nos marcadores relacionados com a glicose:
- a glicemia em jejum caiu cerca de 30–40 % nos ratinhos diabéticos, com um efeito que aumentou claramente à medida que a dose subia;
- quando comparados com ratinhos diabéticos não tratados com o extracto, os ratinhos tratados com NRK recuperaram a sensibilidade à insulina em quase 50 %.
Os autores assinalam ainda que a tolerância à glicose, os níveis de glicogénio hepático e os lípidos melhoraram com o extracto, ao mesmo tempo que houve uma redução significativa da resistência à insulina e da hiperglicemia no contexto de diabetes tipo 2.
Stress oxidativo e protecção de órgãos
Para lá dos valores no sangue, o estado geral dos órgãos no final do ensaio sugeriu benefícios adicionais. Em comparação com os ratinhos diabéticos não tratados, os ratinhos que receberam NRK apresentaram sinais de melhor integridade interna, com fígado e pâncreas aparentemente mais protegidos face aos danos observados no modelo de diabetes.
O estudo refere também uma diminuição do stress oxidativo associado à diabetes, um factor frequentemente ligado à progressão de complicações metabólicas.
Porque estes efeitos chamam a atenção face a fármacos isolados
Os investigadores sublinham que uma “largura” de efeitos como a observada é pouco comum num único medicamento produzido industrialmente, o que sugere que o extracto poderá estar a actuar sobre desequilíbrios metabólicos de base, em vez de apenas aliviar sintomas isolados.
A química orgânica Huilan Yue, do Instituto do Noroeste de Biologia do Planalto (China), interpreta os dados como um sinal de abordagem mais abrangente: em vez de apenas baixar a glicose como acontece com muitos tratamentos, o extracto parece ajudar o organismo a reaproximar-se de um equilíbrio metabólico natural - com potenciais implicações para outras condições em que a resistência à insulina tem um papel central.
O que falta esclarecer antes de pensar em utilização clínica
Apesar dos resultados em ratinhos serem promissores, a passagem para humanos exige cautela. Extractos vegetais podem variar bastante em composição consoante a origem, colheita e método de extracção; por isso, a padronização do extracto concentrado de NRK é crucial para garantir consistência, eficácia e segurança.
Também será importante avaliar potenciais interacções com terapêuticas existentes, como a metformina, e confirmar em estudos adicionais quais os componentes activos responsáveis pelos efeitos observados, qual a dose mais adequada e quais os eventuais efeitos adversos a longo prazo.
Conclusão
Os autores reconhecem que, apesar do número crescente de fármacos para o tratamento da diabetes tipo 2, muitos podem levar a tolerância e efeitos secundários que afectam a saúde do organismo. Neste contexto, concluem que o extracto concentrado de Nitraria roborowskii Kom. (NRK) poderá representar um candidato com potencial para melhorar a resistência à insulina e reduzir a hiperglicemia, ao mesmo tempo que melhora o metabolismo lipídico e reduz o stress oxidativo num modelo experimental.
Esta investigação foi publicada na Revista Chinesa de Farmácia Moderna Aplicada.
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