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Um teste ao sangue poderá detetar os primeiros sinais da Doença de Parkinson anos antes dos sintomas

Cientista em bata branca observa tubo com líquido vermelho num laboratório moderno e organizado.

Um simples teste ao sangue poderá, no futuro, indicar os sinais mais precoces da Doença de Parkinson muitos anos antes de surgirem os sintomas mais visíveis, segundo um novo estudo centrado na reparação do ADN e no stress celular.

Reparação do ADN e stress celular: pistas iniciais da Doença de Parkinson

Já se sabia que os processos pelos quais as células reparam o ADN e se adaptam ao stress celular estão associados à Doença de Parkinson. Neste trabalho, os investigadores identificaram biomarcadores no sangue ligados a esses mecanismos em pessoas com Doença de Parkinson em fase prodrómica (prodromal) - uma etapa inicial que pode prolongar-se por até 20 anos antes de se manifestarem os sintomas principais.

A equipa, da Universidade de Tecnologia de Chalmers (Suécia) e da Universidade de Oslo (Noruega), defende que estes resultados podem apoiar novas formas de detetar a Doença de Parkinson com antecedência e, potencialmente, ajudar a encontrar estratégias para evitar que a doença se desenvolva.

“Evidenciámos biomarcadores que provavelmente refletem parte da biologia inicial da doença e demonstrámos que podem ser medidos no sangue”, afirma Annikka Polster, bioestatística da Universidade de Oslo.
“Isto abre caminho a testes de rastreio alargados através de amostras de sangue: um método económico e de fácil acesso.”

O que acontece no cérebro à medida que a Doença de Parkinson progride

Com a progressão da Doença de Parkinson, a morte de neurónios que produzem dopamina leva a perdas nas funções motoras, no pensamento e na memória. Nos últimos anos, vários estudos sugeriram que uma menor resiliência celular e falhas na manutenção do ADN poderão estar por trás desse dano.

Como o estudo foi feito: análise da expressão génica em amostras de sangue

Durante três anos, os investigadores acompanharam a expressão génica em amostras de sangue de três grupos:

  • 188 participantes saudáveis (grupo de controlo)
  • 393 pessoas com Doença de Parkinson plenamente desenvolvida
  • 58 pessoas com Doença de Parkinson em fase prodrómica (quando a doença está a iniciar-se no cérebro)

Ao comparar as amostras entre os três grupos, o estudo mostrou que alterações em genes ligados à reparação do ADN e às respostas ao stress celular - e os efeitos daí resultantes nas células do sangue - conseguem distinguir, com elevada precisão, pessoas saudáveis de pessoas na fase prodrómica. Em alguns cenários, a exatidão chegou a 91%.

Um padrão curioso: stress celular presente cedo e ausente mais tarde

Um dos resultados mais marcantes foi que os marcadores de stress celular não apareceram no sangue das pessoas com Doença de Parkinson já totalmente instalada. É quase como se as fases iniciais desencadeassem um “modo de emergência” nas células, que mais tarde deixa de estar ativo à medida que a doença avança.

“Isto significa que encontrámos uma janela de oportunidade importante para detetar a doença antes de surgirem sintomas motores causados por dano nervoso no cérebro”, explica Polster.
“O facto de estes padrões surgirem apenas numa fase inicial e deixarem de estar ativados quando a doença progride também torna relevante focarmo-nos nestes mecanismos para desenvolver tratamentos futuros.”

Porque é tão importante detetar cedo

Quando os problemas clássicos de controlo motor e os tremores associados à Doença de Parkinson se tornam evidentes, uma parte significativa do dano cerebral já ocorreu. Se for possível identificar a doença antes desse ponto, poderá ser viável iniciar mais cedo tratamento, monitorização clínica e apoio - mesmo que o objetivo inicial seja atrasar a progressão e preparar intervenções de forma atempada.

Os autores estimam que poderá demorar cerca de cinco anos até um teste deste tipo estar operacional. Ainda assim, face a exames como imagética cerebral e outras técnicas de rastreio da Doença de Parkinson, uma colheita de sangue é simples, rápida e pouco complexa - e não é a única abordagem baseada em sangue que está a ser desenvolvida.

Impacto global e a urgência de novas ferramentas

Atualmente, existem mais de 10 milhões de pessoas afetadas pela Doença de Parkinson em todo o mundo, e ainda não há cura. A melhor hipótese de mudar este cenário poderá estar em identificar a doença muito antes de ela se consolidar.

“Quando os sintomas motores da Doença de Parkinson aparecem, entre 50% e 80% das células cerebrais relevantes já estão frequentemente danificadas ou perdidas”, refere o biólogo de sistemas da Universidade de Tecnologia de Chalmers, Danish Anwer.
“Este estudo é um passo importante para facilitar a identificação precoce da doença e contrariar a sua progressão antes de chegar tão longe.”

O que ainda falta esclarecer antes de um rastreio em larga escala

Para que um teste ao sangue seja adotado como rastreio, será crucial validar estes biomarcadores no sangue em populações maiores e mais diversas, confirmando a robustez dos resultados em diferentes idades, contextos clínicos e perfis de risco. Também será importante definir como interpretar um resultado “positivo” numa fase prodrómica e quais as decisões clínicas apropriadas, evitando ansiedade desnecessária ou intervenções sem benefício comprovado.

Além disso, a integração de um teste deste tipo em cuidados de saúde de rotina exigirá protocolos claros: quem deve ser testado, com que frequência e como articular o resultado com avaliação neurológica, acompanhamento e, quando aplicável, encaminhamento para estudos clínicos e estratégias de prevenção.

A investigação foi publicada na revista npj Doença de Parkinson.

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