Saltar para o conteúdo

No Níger, soldados italianos e a África Corps da Rússia convivem de forma surpreendente.

Três soldados em uniforme em posição na areia com barris amarelos e mapa da África ao fundo.

As tropas italianas, operacionais do Corpo de África russo e forças nigerinas passam agora a partilhar o mesmo perímetro poeirento em torno da Base 101, um ponto estratégico encostado a uma pista internacional e próximo de milhares de toneladas de concentrado de urânio apreendido. Esta convivência espelha uma mudança global: a influência ocidental recua no Sahel e Moscovo vai ocupando, discretamente, o espaço deixado vago.

A Base 101 junto ao aeroporto: um posto europeu entre novos parceiros

A Base 101 fica ao lado do Aeroporto Internacional Diori-Hamani, em Niamey, capital do Níger. Vista por satélite, parece um complexo como tantos outros associados a um aeroporto: hangares, placas de estacionamento, depósitos de combustível e infraestruturas logísticas. No terreno, porém, a realidade tornou-se pouco comum.

No espaço que resta como último bastião ocidental significativo no país, permanecem várias centenas de militares italianos, destacados no âmbito da Missão de Apoio Bilateral à República do Níger. Quase todos os outros já saíram: França, Estados Unidos e a maioria das forças alemãs retiraram-se após o golpe de 2023 e o corte abrupto com parceiros tradicionais.

Ainda assim, os italianos mantêm-se - mas numa base agora partilhada com unidades nigerinas e com o Corpo de África, a nova estrutura expedicionária associada ao Ministério da Defesa russo e amplamente entendida como herdeira da rede Wagner em África.

A Base 101 transformou-se numa configuração rara, quase experimental: militares de um país da NATO e forças russas a operarem lado a lado com o mesmo regime anfitrião - mas não em conjunto.

Depois do golpe, só Roma ficou

Até meados de 2023, o Níger era um ponto-chave para contraterrorismo e vigilância no Sahel. A França conduzia operações relevantes a partir do país depois de ter sido forçada a abandonar o Mali. Os Estados Unidos investiram somas elevadas e equipamento em bases aéreas usadas por drones e forças especiais. A Alemanha mantinha uma presença mais modesta.

O golpe militar em Niamey alterou por completo o quadro. Sob pressão da nova junta e com uma onda de sentimento anti-francês, Paris retirou-se. Washington seguiu o mesmo caminho após meses de negociações tensas. Berlim, de forma discreta, retirou cerca de quarenta militares.

Roma escolheu outra via. Ao procurar apresentar-se como um parceiro menos intrusivo - e preocupada com as rotas migratórias que cruzam o Sahel em direcção ao Mediterrâneo - a Itália decidiu manter o seu contingente, estimado em cerca de 300 militares. A comunicação oficial sobre números tem sido deliberadamente pouco precisa, tanto por prudência diplomática como por razões de segurança operacional.

A Itália é hoje o único país ocidental com uma missão militar visível ainda tolerada pela junta do Níger - um estatuto que dá margem de manobra a Roma, mas também aumenta a exposição ao risco.

Um ataque jihadista põe à prova o novo equilíbrio na Base 101

A convivência invulgar na Base 101 ficou mais nítida a 30 de janeiro, quando combatentes ligados ao Estado Islâmico no Sahel atacaram a instalação. Segundo fontes locais e diplomáticas, o assalto causou danos em edifícios e em aeronaves estacionadas na base.

As forças nigerinas, apoiadas por operacionais do Corpo de África russo, responderam e repeliram os atacantes. Os militares italianos não participaram nos confrontos, mantendo-se confinados ao seu sector dentro do complexo.

Este pormenor é revelador. Aponta para um entendimento delicado - possivelmente não escrito - segundo o qual os italianos permanecem ao abrigo de um quadro bilateral com o Níger, enquanto as operações de combate contra jihadistas em torno da capital passam a ser, em grande medida, conduzidas por unidades nigerinas e russas.

Poucos dias depois, a 9 de fevereiro, o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas italianas, Luciano Portolano, deslocou-se a Niamey. Oficialmente, a visita teve como objectivo avaliar a segurança do pessoal italiano e o futuro da missão. Politicamente, sublinhou a sensibilidade de partilhar uma base com forças russas num momento em que as tensões entre a NATO e Moscovo continuam elevadas devido à Ucrânia.

Barris de urânio e apostas geopolíticas

O que rodeia a base acrescenta uma camada adicional de complexidade. Nas imediações do perímetro militar existem barris que, segundo relatos, contêm cerca de 1 000 toneladas de concentrado de urânio, apreendidas pela junta do Níger à empresa nuclear francesa Orano (antiga Areva).

Esse stock simboliza boa parte do que está em jogo no Níger:

  • O controlo de minerais estratégicos que alimentam centrais nucleares europeias.
  • A disputa entre influência ocidental e russa num Estado rico em recursos.
  • A política nacionalista interna, com a junta a querer demonstrar que “recupera” activos de empresas estrangeiras.

Para a Itália, a proximidade de operacionais russos a material tão sensível é embaraçosa, mesmo sem existir qualquer indicação pública de transferência de controlo. Para Moscovo, a presença de pessoal perto do urânio nigerino reforça a sua tentativa mais ampla de redesenhar ligações energéticas e de segurança no continente.

O que é, afinal, o Corpo de África?

O Corpo de África é uma designação relativamente recente para as projecções externas da Rússia, em especial em África, após a dissolução formal de grande parte da estrutura Wagner. Na prática, combina militares russos, contratados privados e auxiliares locais, operando com uma margem de negação e ambiguidade superior à de missões clássicas entre Estados.

Em países como o Mali e a República Centro-Africana, operacionais russos têm oferecido protecção de regimes, apoio de combate e propaganda nas redes em troca de concessões mineiras, contratos de armamento e influência política.

No Níger, o Corpo de África traduz a aposta de Moscovo de que a junta procura uma resposta de segurança mais dura e menos “lições” ocidentais sobre democracia e direitos humanos.

A aposta discreta de Itália no Sahel

Roma teme há muito que o colapso do Estado e a violência jihadista no Sahel empurrem mais pessoas para a travessia rumo ao Mediterrâneo. Enquanto a França assumia frequentemente o desgaste político de campanhas de contra-insurgência controversas, a diplomacia italiana insistia numa narrativa de parceria e formação.

A Missão de Apoio Bilateral à República do Níger foi inicialmente apresentada como um instrumento para ajudar forças locais a proteger fronteiras, combater redes de tráfico e responder ao terrorismo - sem colocar a Itália como actor de combate na linha da frente. Essa lógica continua a orientar a missão, mas o contexto mudou de forma profunda.

Hoje, militares italianos operam pareda-meia com efectivos russos que o Ocidente acusa de abusos de direitos humanos noutros teatros. Qualquer incidente na base, ou nas proximidades, pode rapidamente transbordar para o debate político interno em Roma e para discussões na NATO e na União Europeia.

Além disso, a localização junto ao principal aeroporto de Niamey dá à Base 101 um peso logístico particular: fluxos de abastecimento, evacuações médicas e ligações aéreas podem ficar sujeitos a constrangimentos políticos súbitos. Mesmo sem confrontos directos, a simples gestão de acessos, horários e perímetros num espaço partilhado tende a criar fricções, sobretudo em períodos de crise.

Há ainda um efeito menos visível, mas relevante: a percepção da população local. Numa cidade em que o sentimento anti-francês ganhou força, a permanência italiana pode ser lida de modo ambivalente - como alternativa “mais aceitável” para alguns, ou como mais um símbolo de presença estrangeira para outros. Essa leitura social condiciona, a prazo, a margem de acção da junta e de qualquer parceiro externo.

Cenários possíveis para a Base 101

Cenário O que significaria
Retirada italiana ordeira Roma negocia uma saída faseada, evita choque com a junta e com Moscovo, mas perde o último ponto de apoio relevante no Níger.
Presença reduzida, mas continuada A Itália diminui efectivos, concentra-se em formação e logística e tolera a proximidade desconfortável com forças russas.
Envolvimento italiano mais profundo Improvável, mas possível se Niamey procurar equilibrar parceiros e atribuir a Roma um papel no planeamento de segurança ao lado da Rússia.
Expulsão forçada Um corte político brusco que reforçaria ainda mais o monopólio russo do apoio militar estrangeiro no Níger.

O que isto indica para o Sahel como um todo

O novo alinhamento de segurança do Níger insere-se numa tendência regional mais ampla. As juntas militares no Mali, no Burkina Faso e no Níger afastaram-se de parceiros ocidentais de longa data. Coordenaram políticas na Aliança dos Estados do Sahel e arrefeceram relações com a CEDEAO, o bloco regional da África Ocidental.

A Rússia aproveitou a abertura, apresentando-se como aliado pragmático que fornece armas, instrutores e “manual de sobrevivência” para regimes sob pressão. Os Emirados Árabes Unidos e a Turquia também procuram influência, sobretudo através de vendas de armamento e projectos de infraestruturas.

Para governos ocidentais, o dilema passa por manter algum tipo de cooperação de segurança no Sahel sem legitimar regimes que chegaram ao poder pela força. A decisão italiana de permanecer em Niamey, depois de França e Estados Unidos terem saído, é observada noutras capitais como um caso-teste: poderá uma potência europeia mais pequena e menos confrontacional conservar espaço onde actores maiores foram expulsos?

Conceitos-chave: porque é que esta base importa

Para compreender a relevância da Base 101, ajuda enquadrar o tema com alguns conceitos:

  • Profundidade estratégica: o Níger oferece profundidade operacional para acções no Sahel e no Sahara alargado, da fronteira com a Líbia ao norte da Nigéria.
  • Centro de contraterrorismo: pistas, instalações para drones e centros de partilha de informação em Niamey e arredores são essenciais para seguir movimentos jihadistas.
  • Corredor de influência: quem influencia o Níger condiciona rotas de comércio, migração e segurança que ligam a África Ocidental à Europa e ao Médio Oriente.

Cada uma destas dimensões dá à Base 101 um valor que vai muito além de cercas e pistas. E ajuda a explicar porque nem Roma nem Moscovo parecem apressadas a sair, apesar de uma coabitação politicamente incómoda.

Riscos para o Níger, para a Itália e para a Rússia

Para a junta do Níger, acolher militares italianos e russos traz ganhos imediatos: diversifica opções de segurança, dificulta a aplicação de sanções e aumenta a visibilidade internacional do regime. Em contrapartida, cresce o risco de ficar enredada em rivalidades que não controla por completo.

Para a Itália, a missão pode reforçar o seu perfil diplomático e garantir-lhe voz em futuras negociações sobre o Sahel. Mas um único incidente mortal envolvendo militares italianos, contratados russos ou civis locais pode destruir rapidamente o apoio interno e levantar dúvidas em Bruxelas e em Washington.

A Rússia também caminha sobre uma linha fina. A presença do Corpo de África no Níger integra uma expansão africana feita a custo relativamente baixo. Se essa presença ficar associada a abusos, operações falhadas ou choques com forças ocidentais, os dividendos políticos podem desaparecer tão depressa quanto surgiram.

A coexistência na Base 101 é menos um arranjo estável do que uma fotografia em movimento de uma região em transformação, onde as alianças mudam mais depressa do que se consegue deitar betão.

Por agora, os militares italianos mantêm rotinas sob o sol do Sahel, os russos permanecem nos seus próprios espaços e os comandantes nigerinos tentam coordenar este ecossistema de segurança cada vez mais congestionado. A duração deste equilíbrio vai influenciar não só o futuro do Níger, mas também o próximo capítulo da longa e disputada luta pela influência no Sahel.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário