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“Aos 68 anos, o meu sono dependia da rotina”: noites desreguladas destruíram o meu descanso.

Mulher de pijama apaga despertador numa mesa de cabeceira ao lado da cama com chá e livro.

Aos 68 anos, percebi que as minhas noites já não me pertenciam.
Havia serões em que adormecia em frente à televisão às 20h45, de boca entreaberta, com o comando a escorregar-me da mão. Noutras noites, dava por mim sentado na cama às 2h17 da manhã, completamente desperto, a deslizar no telemóvel com aquela sensação ansiosa de que a escuridão nunca mais acabaria.

A pior parte nem era a falta de sono. Era a imprevisibilidade.

Uma noite boa, duas más, três daquelas em que pensava: “para que é que eu me deitei sequer?”

Um dia, o meu médico olhou para mim e disse uma frase calma que eu não queria ouvir.
O meu sono não estava estragado.
As minhas noites é que estavam.

Quando todas as noites são diferentes, o cérebro deixa de saber que horas são

Houve uma altura em que os meus dias eram quase todos iguais.
Quando ainda trabalhava, acordava às 6h30, apanhava sempre o mesmo autocarro, almoçava no mesmo café, deitava-me por volta das 23h. Não era emocionante, mas dormia. O meu corpo sabia aquele guião de cor.

A reforma desfez esse guião por completo.

Jantar às 18h numa noite, às 21h30 na seguinte.
Uma maratona de séries até à 1 da manhã numa terça-feira, uma chamada de família que se prolongava para lá da meia-noite numa quinta. Às vezes dormia uma sesta às 17h, outras vezes aguentava com café. Os meus dias pareciam livres. As minhas noites começaram a parecer uma lotaria.

Num inverno, comecei a registar o meu sono num bloco, à moda antiga.
Apontava a que horas jantava, se bebia vinho, quando desligava a televisão, a que horas me deitava mesmo, quando acordava. Ao fim de três semanas, surgiu um padrão muito claro.

Nos dias em que a minha noite era minimamente regular - jantar antes das 20h, ecrãs desligados mais ou menos à mesma hora, cama dentro da mesma janela de 30 minutos - eu dormia mais de seis horas.

Nas noites caóticas, quando um vizinho aparecia de surpresa, a Netflix deixava seguir para “só mais um episódio”, ou eu ficava a navegar sem rumo no telemóvel já na cama, o meu sono caía para menos de quatro horas.

As noites pareciam “aleatórias”.
No papel, não eram nada disso.

Há uma verdade simples, e um pouco irritante, por trás disto tudo.
O nosso cérebro não é propriamente moderno.

Não quer saber se a plataforma de streaming lançou uma série nova, ou se os netos só têm tempo para telefonar tarde. Ele responde a sinais: escuridão, silêncio, o cheiro do jantar, a calma da casa, repetidos mais ou menos à mesma hora todos os dias.

Quando esses sinais surgem a horas diferentes em cada noite, o relógio interno fica baralhado.
A melatonina não sobe como devia, a temperatura do corpo não desce em sintonia, e aquilo que devia parecer “noite” começa a parecer jet lag sem viagem de avião.

Percebi que a minha insónia não era um inimigo misterioso. Era um emaranhado de sinais contraditórios que eu próprio estava a enviar ao meu corpo.

A rotina “aborrecida” que me salvou as noites

Não comecei com uma cura milagrosa.
Comecei com um alarme.

Às 20h30, o meu telemóvel toca uma campainha discreta. Esse é o meu sinal: começa a rotina da noite. Não é “hora de dormir”, é apenas o início da aterragem lenta. Desligo a televisão, mesmo que o episódio ainda não tenha acabado. O episódio por terminar fica como recompensa para o dia seguinte.

Ponho a chaleira ao lume.
Lavo o rosto com água morna, o que de alguma forma diz ao meu corpo: “o dia terminou”. Depois sento-me no mesmo cadeirão, com a mesma luz suave, e leio um livro em papel durante 20 minutos. Nada de thrillers viciantes. Algo calmo, que eu possa pousar a meio de uma frase.

Luzes mais baixas às 22h30, cama antes das 23h, com uma margem de 15 minutos para mais ou para menos. Todos os dias. Sim, até ao sábado.

As primeiras noites pareceram rígidas, quase absurdas.
Passei décadas a viver segundo horários que não tinha escolhido. Agora que era livre, ia mesmo impor-me outro?

A mudança começou a sentir-se ao fim de cerca de dez dias. Numa noite, a meio de um parágrafo, comecei a sentir os olhos a fechar-se sozinhos. Sem discussão mental. Sem “só mais um capítulo”.

Há um detalhe que quase ninguém diz: a rotina não funciona se só for usada nas noites em que “apetece”.
O cérebro aprende com repetição, não com motivação.

E sejamos honestos: ninguém faz isto de forma perfeita todos os dias. Já tive jantares tardios, aniversários, um jogo de futebol que foi a prolongamento. A diferença é que agora isso são exceções, não a regra. E o meu sono perdoa a exceção, desde que eu volte depressa ao padrão.

Quanto mais falava disto com amigos da minha idade, mais percebia que não era o único.
Uma frase de um especialista em sono ficou comigo:

“As pessoas pensam que o sono depende do que acontece na cama.
A maior parte do trabalho é feita nas duas horas antes de nos deitarmos.”

Para tornar tudo mais fácil, transformei a rotina numa espécie de checklist:

  • Baixar a intensidade das luzes sempre à mesma hora
  • Desligar os ecrãs pelo menos 45 minutos antes de deitar
  • Fazer um jantar leve e não demasiado tarde
  • Repetir um ritual simples (chá, livro, respiração, oração, qualquer coisa tranquila)
  • Manter uma hora regular para acordar, mesmo depois de uma noite má

Não fiz isto tudo de forma perfeita desde o primeiro dia.
Mas cada pequeno gesto repetido com regularidade era como ensinar ao meu corpo uma nova linguagem para a hora de dormir.

Viver com uma rotina sem se sentir preso a ela

Hoje, vistas de fora, as minhas noites parecem quase previsíveis.
Por dentro, sabem a outra coisa: segurança.

Já não olho para as 3 da manhã como uma hora assombrada. Quando acordo - e sim, isso ainda acontece - o meu corpo consegue voltar a adormecer com muito mais frequência, porque voltou a aprender o que significa “noite”.

Claro que a vida continua. Um jantar com amigos que se estende até à meia-noite. Uma tempestade barulhenta a abanar as janelas. Um neto a dormir cá em casa que não quer saber nada da minha rotina. Aceito essas noites como parte da história, não como prova de que está tudo perdido.

Às vezes penso que falamos do envelhecimento como se fôssemos perdendo pedaços de nós aos poucos.
A minha experiência com o sono deu-me exatamente a sensação oposta.

Ao reconstruir as minhas noites, recuperei algo que julgava perdido: clareza de manhã, paciência à tarde, a capacidade de ler uma página inteira sem voltar atrás três vezes na mesma frase. As articulações continuam a estalar, os joelhos continuam a protestar nas escadas, mas a minha cabeça sente-se mais nítida aos 68 do que aos 60.

Há, no entanto, uma armadilha emocional. Quando começamos a sentir os benefícios, podemos ficar demasiado rígidos, quase ansiosos com qualquer mudança. É aí que a rotina deixa de nos servir e passamos nós a servi-la.

O que me ajudou foi olhar para a estrutura da noite menos como uma lei e mais como uma base segura.
Posso sair dessa base, ficar acordado até mais tarde, aproveitar uma noite desorganizada.

Depois, no dia seguinte, volto à minha pequena coreografia: a mesma luz, o mesmo cadeirão, o mesmo livro, o mesmo silêncio. O meu corpo parece suspirar: “ah, estamos aqui outra vez”.

Este é o segredo estranho que gostava que alguém me tivesse contado mais cedo.
Pensamos que liberdade é poder fazer tudo a qualquer hora. Aos 68 anos, deitado no escuro, descobri outra versão da liberdade: saber que esta noite, muito provavelmente, vou dormir.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A regularidade da noite conta mais do que parece Horários semelhantes para jantar, baixar as luzes e deitar ajudam a reajustar o relógio interno Devolve noites mais previsíveis sem recorrer a medicação
A rotina funciona pela repetição Gestos simples repetidos todos os dias (chá, livro, luz suave) treinam o cérebro para dormir Facilita adormecer e reduz o stress ao longo do tempo
A flexibilidade torna a rotina sustentável Aceitar noites ocasionais mais tardias, regressando rapidamente ao padrão Evita culpa e permite manter a vida social

FAQ:

  • Tenho de me deitar exatamente à mesma hora todas as noites?
    Não. Uma margem de 30 a 45 minutos costuma ser suficiente. O objetivo é a regularidade, não a perfeição, sobretudo depois dos 60, quando os ritmos sociais e familiares variam mais.

  • Já vou tarde para melhorar a minha rotina de sono nesta idade?
    Não. O cérebro consegue adaptar-se em qualquer fase da vida. As mudanças podem ser mais lentas, mas muitas pessoas notam melhorias após 10 a 14 noites consistentes.

  • E se eu acordar às 3 da manhã e não conseguir voltar a adormecer?
    Saia da cama, mantenha a luz baixa e faça algo tranquilo (ler, respirar fundo, tricotar) até voltar a sentir sono. Ficar na cama completamente desperto ensina o cérebro a associar a cama à preocupação.

  • Posso continuar a fazer sestas durante o dia?
    Sim, mas convém que sejam curtas (20 a 30 minutos) e não muito ao fim da tarde. Sestas longas ou tardias podem “roubar” sono à noite.

  • Preciso de comprimidos para dormir para reconstruir uma rotina?
    Não necessariamente. Muitas pessoas melhoram o sono apenas com rotina. Se já toma medicação ou está a pensar nisso, fale com o seu médico antes de fazer alterações.

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