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O degelo do permafrost pode libertar muito mais gases de efeito de estufa do que se pensava.

Mulher vestida com casaco azul analisa solo húmido num campo aberto durante pôr do sol.

Em pleno extremo norte, nos solos gelados, está a acontecer algo que durante muito tempo foi subestimado - e que pode agravar seriamente a pressão sobre o clima.

Durante décadas, o permafrost foi visto como um enorme reservatório de carbono relativamente “adormecido”. Investigação recente, porém, indica que as comunidades microbianas encerradas nesses solos congelados são mais activas e versáteis do que se supunha - e que, à medida que o degelo avança, podem libertar mais gases com efeito de estufa do que as previsões mais prudentes admitiam.

O que é o permafrost e o que está guardado no solo gelado

O termo permafrost descreve solos que permanecem congelados de forma contínua por, pelo menos, dois anos. Estas áreas concentram-se sobretudo na Sibéria, Alasca, Canadá, Gronelândia e em zonas da Ártico. No interior destes solos encontra-se uma quantidade enorme de carbono, principalmente sob a forma de restos de plantas, raízes e antigas camadas de turfa.

Estimativas científicas indicam que o permafrost armazena mais do dobro do carbono actualmente presente em toda a atmosfera terrestre.

Quando as temperaturas sobem, o solo outrora permanentemente gelado começa a descongelar. A mecânica do processo é directa: os microrganismos retomam actividade, decompõem a matéria orgânica e, nesse metabolismo, libertam dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄). Esses gases reforçam o aquecimento atmosférico - criando um efeito de retroalimentação: mais calor leva a mais degelo, que por sua vez leva a mais emissões.

Há anos que climatólogos alertam que o degelo do permafrost poderá originar emissões comparáveis às de grandes países industrializados. Resultados recentes associados a uma equipa da Universidade do Colorado sugerem, contudo, que alguns cenários podem ter sido conservadores.

Permafrost e micróbios: mais carbono acessível do que se pensava

Até há pouco, era comum assumir-se que apenas uma fracção do carbono do permafrost estaria prontamente disponível para os microrganismos. A imagem era a de um “menu fácil”: açúcares simples, lípidos e proteínas que as bactérias conseguiriam usar rapidamente quando o solo aquecesse.

Em contrapartida, compostos mais resistentes - incluindo polifenóis, moléculas complexas que as plantas produzem, entre outros motivos, como defesa - eram considerados difíceis de degradar e, portanto, relativamente protegidos. A expectativa era que essa parte “menos digerível” permanecesse no solo por longos períodos, ajudando a manter estável o armazenamento de carbono.

Essa premissa está agora a ser posta em causa. Os investigadores mostraram que, em condições de pouco oxigénio, micróbios presentes no permafrost em descongelação conseguem, afinal, decompor polifenóis. Este tipo de capacidade era mais associado a bactérias do intestino de humanos e outros animais.

Experiências laboratoriais recentes indicam que microrganismos do permafrost conseguem explorar fontes de carbono que eram tidas como praticamente “intocáveis”.

A consequência é clara: o volume de carbono potencialmente libertável aumenta. Se, além do material mais simples, também a matéria orgânica mais “fibrosa e resistente” passa a ser metabolizada, diminui a parcela que poderia ficar retida no solo durante muito tempo.

Porque é que isto deixa os modelos climáticos em alerta

Muitos modelos climáticos incorporam o permafrost com estimativas cautelosas: assumem que apenas uma parte do carbono armazenado será efectivamente transformada em CO₂ ou CH₄. Os novos resultados sugerem que essa percentagem pode ser maior, sobretudo em ambientes onde a disponibilidade de oxigénio é limitada.

O tamanho exacto do impacto ainda não está fechado. Os próprios autores sublinham a necessidade de medições mais detalhadas no terreno, em diferentes regiões e estações do ano. Ainda assim, a mensagem é difícil de ignorar: ao representar o permafrost nas projecções climáticas, convém admitir que os micróbios podem ser mais eficazes do que se esperava - com efeitos negativos nas emissões.

  • Mais fontes de carbono utilizáveis: microrganismos conseguem aceder também a polifenóis complexos.
  • Janelas de actividade mais longas: períodos de degelo mais prolongados aumentam a “respiração” microbiana.
  • Risco acrescido de metano: em condições de baixa oxigenação, a produção de CH₄ tende a aumentar.
  • Retroalimentação climática: mais gases libertados do solo intensificam o aquecimento e aceleram o degelo.

Um ponto particularmente preocupante são as zonas de permafrost encharcadas e lamacentas, onde o oxigénio se torna escasso. Nesses ambientes, a formação de metano e de outros gases com forte impacto climático é favorecida.

A ideia do “truque” do carbono no permafrost perde força

Nos últimos anos circulou uma proposta que parecia engenhosa: introduzir polifenóis adicionais em solos de permafrost em degelo para “abrandar” os microrganismos. A lógica era bloquear certas enzimas, reduzir a decomposição da matéria orgânica e manter o carbono armazenado por mais tempo.

À luz das novas evidências, essa abordagem pode revelar-se contraproducente. Se os micróbios conseguirem usar polifenóis como fonte de carbono, adicionar esses compostos pode equivaler a aumentar o alimento disponível, em vez de travar o processo.

As conclusões colocam em dúvida a expectativa de estabilizar tecnologicamente o permafrost como um cofre de carbono fiável e duradouro.

Em vez de um “tesouro” seguro, o permafrost pode comportar-se como uma fonte de emissões instável e difícil de controlar. Isso devolve protagonismo a estratégias mais robustas: cortar emissões, proteger florestas e turfeiras, reduzir consumo de energia - em suma, colocar menos gases com efeito de estufa na atmosfera antes que o degelo acelere.

Qual é o risco para o clima global?

Os números variam conforme os cenários, mas a tendência é consistente. Se o aquecimento for mantido bem abaixo de 2 °C, uma parte relevante do permafrost poderá persistir. Se a subida atingir 3–4 °C, grandes áreas descongelam, infra-estruturas no Ártico ficam instáveis (estradas e edifícios podem ceder), e as emissões do solo aumentam em paralelo.

Aquecimento até 2100 Área esperada de degelo do permafrost Risco de emissões adicionais
~ 1,5 °C relativamente limitada, com forte variação regional significativo, mas potencialmente ainda gerível
~ 2–3 °C grandes extensões na Sibéria e na América do Norte volumes possivelmente comparáveis aos de grandes países industrializados
> 3 °C perda extensa de solos permanentemente gelados “avalanche” de gases com efeito de estufa difícil de quantificar

Por isso, muitos especialistas descrevem o permafrost como uma espécie de “dívida climática escondida”: o carbono já está “em fila de espera” para ser emitido - apenas ainda não chegou à atmosfera na forma de gás. À medida que o solo descongela, essa dívida pode ser cobrada gradualmente.

CO₂, metano e permafrost - conceitos essenciais

O que fazem o dióxido de carbono e o metano

O dióxido de carbono (CO₂) é emitido sobretudo pela combustão de carvão, petróleo, gás e biomassa. Permanece durante muito tempo na atmosfera e actua como uma camada que dificulta a perda de calor para o espaço.

O metano (CH₄) tem origens na agricultura, em fugas na cadeia do gás natural e em fontes naturais como turfeiras e solos de permafrost em degelo. Embora permaneça menos tempo na atmosfera do que o CO₂, aquece muito mais no curto prazo - o que o torna decisivo para a velocidade do aquecimento nas próximas décadas.

O que o permafrost é, na prática

O permafrost não é um bloco puro de gelo: trata-se de uma mistura de terra, pedras, gelo e matéria orgânica morta. Um solo que congela no inverno e descongela totalmente no verão não é permafrost. Só se fala em permafrost quando, abaixo da superfície, a temperatura se mantém de forma duradoura abaixo de 0 °C.

Com as alterações climáticas, a fronteira do permafrost tende a deslocar-se para norte e a mudar em profundidade. As camadas mais superficiais descongelam primeiro e começam a libertar gases muito antes de todo o perfil do solo perder o gelo.

O que muda para a política climática e para a vida quotidiana

Na política climática internacional, a implicação é directa: o permafrost não deve ser tratado como um simples pano de fundo, mas como um componente activo do sistema climático. Quanto mais tempo persistirem emissões elevadas, maior tende a ser o degelo e mais fortes podem tornar-se as retroalimentações.

À escala do dia-a-dia na Europa (incluindo Portugal), isto pode parecer distante. Ainda assim, processos no Ártico influenciam padrões atmosféricos, contribuem para alterações no nível do mar e podem afectar a frequência e intensidade de fenómenos extremos. Há também impactos económicos e geopolíticos, como danos em infra-estruturas no norte e pressões associadas a novas rotas marítimas e exploração de recursos.

Um aspecto adicional que ganha importância é a monitorização: combinar medições no terreno com satélites, sensores de humidade/temperatura e inventários de emissões pode reduzir incertezas e melhorar as previsões. E, na prevenção, medidas que limitem o aquecimento a curto prazo - como reduzir metano e outros poluentes de vida curta - ajudam a diminuir a velocidade do degelo.

No fim, a conclusão prática é simples: se o objectivo é proteger o clima, faz sentido contar com um permafrost cada vez menos “passivo” e acelerar a redução de emissões, em vez de apostar em soluções subterrâneas que podem acabar por alimentar ainda mais a actividade microbiana.

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