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Confinados num quarto de hotel com influenza - e, ainda assim, ninguém apanhou gripe

Três pessoas numa sala, uma com manta, discutem dados num computador com medicamentos numa mesa.

Um grupo de voluntários passou vários dias fechado num quarto de hotel pequeno com pessoas que estavam, naquele momento, ativamente infetadas com influenza (o vírus da gripe). Jogaram jogos, partilharam objetos e fizeram exercício em conjunto, numa rotina pensada para facilitar a transmissão. Surpreendentemente, não houve um único caso de gripe entre os participantes não infetados.

Este resultado inesperado surgiu de um estudo robusto, concebido para responder a uma pergunta simples, mas difícil de resolver no mundo real: de que forma a gripe se espalha, na prática?

Como se transmite a influenza: aerossóis e transmissão por fómite

Sabe-se que a influenza pode propagar-se através de aerossóis (gotículas microscópicas) libertados quando uma pessoa infetada tosse, espirra ou até quando respira normalmente. Além disso, o vírus pode passar de pessoa para pessoa por contacto com superfícies contaminadas, como maçanetas ou telemóveis - um mecanismo conhecido como transmissão por fómite.

A eficiência com que o vírus se dissemina varia consoante vários fatores: a quantidade de vírus que o doente elimina (a chamada “eliminação viral”), a temperatura e a humidade do espaço, e a proximidade entre as pessoas.

Para perceber quais destes elementos pesam mais, investigadores da Universidade de Maryland, nos EUA, organizaram uma experiência de transmissão em condições reais, recorrendo a pessoas que contraíram gripe de forma natural (em vez de serem infetadas propositadamente em laboratório).

O desenho do estudo: doadores, recetores e condições feitas para favorecer a transmissão

Os investigadores juntaram grupos num quarto de hotel, combinando pessoas com infeção ativa por influenza - designadas doadores - com voluntários sem infeção - os recetores. O objetivo era direto: verificar se a gripe se propagaria num cenário montado para favorecer a transmissão.

O estudo incluiu duas versões:

  • Versão A: um doador no quarto com oito recetores.
  • Versão B: quatro doadores no quarto com três recetores.

Os doadores tinham entre 20 e 22 anos, enquanto os recetores tinham entre 25 e 45 anos.

O quarto foi mantido com condições consideradas propícias à transmissão de influenza: 22 °C a 25 °C e 20% a 45% de humidade. Antes do confinamento dos participantes, os investigadores reduziram deliberadamente a ventilação e a qualidade do ar ao selar vias de entrada/saída de ar não controladas - como janelas, portas e uma fuga existente nas unidades de ventiloconvetores - criando um ambiente de baixa ventilação.

Durante três a sete dias, os participantes passaram horas seguidas naquele espaço. Fizeram atividades próximas e prolongadas: jogaram cartas a curta distância, participaram em aulas de dança ou ioga e circularam objetos partilhados (por exemplo, marcadores, microfones e tablets).

Para acompanhar a possível transmissão, a equipa mediu níveis do vírus no ar exalado, na saliva e em zaragatoas orais dos doadores. Também testou o ar do quarto e os objetos comuns à procura de partículas virais. Em paralelo, os participantes registaram sintomas como tosse, espirros, dores de cabeça e outros sinais típicos de gripe.

Apesar do contacto próximo e repetido, nenhum recetor ficou infetado.

Porque falhou a transmissão de influenza: eliminação viral, imunidade e circulação do ar

Várias amostras dos doadores confirmaram que havia influenza ativa. Ainda assim, nenhum recetor testou positivo. Alguns relataram sintomas ligeiros (como dores de cabeça), mas não surgiu evidência convincente de infeção por gripe em qualquer um deles.

Os investigadores apontam três explicações principais para a ausência de transmissão:

  1. Baixa eliminação viral pelos doadores
    Embora se considere frequentemente que as crianças impulsionam a disseminação da gripe, este estudo envolveu apenas adultos. Aqui, os doadores libertaram quantidades relativamente pequenas de vírus. Isso pode dever-se às estirpes envolvidas, à idade dos participantes ou ao facto de apresentarem poucos sintomas. Observou-se muito pouca tosse ou espirros, o que reduz drasticamente o volume de vírus lançado no ar.

  2. Imunidade parcial dos recetores
    Os recetores tinham vivido várias épocas gripais e alguns já tinham recebido vacinação contra a gripe em anos anteriores; um deles tinha sido vacinado na época em curso. Esse historial de exposições pode ter conferido imunidade de base suficiente para diminuir a suscetibilidade.

  3. Recirculação de ar que diluiu aerossóis
    Mesmo com temperatura e humidade ajustadas para favorecer a transmissão, a elevada recirculação do ar provocada por ventoinhas pode ter perturbado “nuvens” de ar carregadas de vírus. Em vez de permanecerem concentradas junto dos doadores, essas plumas podem ter sido fragmentadas e diluídas, reduzindo a dose inalada pelos recetores.

Em conjunto, os dados reforçam a ideia de que tosse e espirros são motores essenciais da transmissão de influenza, sobretudo quando vêm de pessoas que libertam grandes quantidades de vírus - por vezes descritas como superpropagadores. Ao mesmo tempo, a imunidade de quem é exposto e os padrões de movimento do ar em espaços interiores parecem ser determinantes.

O que isto significa (e o que não significa) para o risco de gripe

O estudo não indica que a influenza seja inofensiva nem que seja difícil de apanhar. Todos os anos, ocorrem milhões - e possivelmente milhares de milhões - de casos em todo o mundo, e existe evidência sólida de que a transmissão por aerossóis desempenha um papel central. O que estes resultados sugerem é que as condições que permitem que a gripe se espalhe podem ser mais complexas do que “partilhar um quarto com alguém infetado”.

Nem todas as pessoas eliminam o vírus ao mesmo nível, e nem todos têm a mesma vulnerabilidade. Como a disseminação por aerossóis é particularmente provável durante tosse e espirros, quem apresenta estes sintomas deve isolar-se sempre que possível e usar uma máscara bem ajustada para reduzir a libertação de vírus no ar. A ventilação e a boa circulação de ar tornam-se especialmente importantes em espaços pequenos e mal ventilados.

Uma implicação prática adicional é que, em ambientes de trabalho e salas de aula, combinar ventilação com outras medidas (por exemplo, filtração do ar e redução de lotações em períodos de maior circulação do vírus) pode ajudar a diminuir a probabilidade de exposição a aerossóis infecciosos, sobretudo quando há pessoas sintomáticas.

Também vale a pena considerar que o risco real varia ao longo do tempo: a capacidade de transmitir pode aumentar com sintomas mais intensos, e a proteção pode oscilar conforme a imunidade individual e a correspondência entre a estirpe em circulação e a vacina. Assim, decisões quotidianas devem ter em conta o contexto (espaço interior, densidade, ventilação, presença de tosse/espirros e época do ano).

Na dúvida, a opção mais segura é assumir que pode apanhar ou transmitir gripe e seguir as recomendações de saúde pública, incluindo vacinação e uso de máscara quando apropriado.

Conor Meehan, Professor Associado de Bioinformática Microbiana, Universidade Nottingham Trent

Este artigo foi republicado ao abrigo de uma licença CC. Leia o artigo original na publicação de origem.

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