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O que o ADN revela sobre os cruzamentos entre humanos e neandertais

Cientista em laboratório a analisar visualização digital de cadeia de ADN com tablet na mão.

NOVA IORQUE (AP) - Há dezenas de milhares de anos, humanos modernos e neandertais partilharam regiões e, ocasionalmente, envolveram-se em relações que deixaram marcas no genoma. O que ainda permanece pouco claro é quem se juntou a quem com mais frequência - e em que circunstâncias esses encontros aconteceram.

Uma nova análise genética vem acrescentar “fofoca” antiga com base em dados: os cruzamentos terão ocorrido, mais vezes, entre mulheres humanas e homens neandertais, em vez do inverso.

Uma pista vinda do cromossoma X e do ADN neandertal

Os investigadores sabem há muito que houve cruzamentos porque a maioria das pessoas de hoje carrega uma pequena, mas relevante, percentagem de ADN neandertal. Algumas dessas variantes genéticas podem contribuir para uma melhor defesa contra certas doenças, enquanto outras podem aumentar a suscetibilidade a problemas de saúde diferentes.

Também se sabia, porém, que esse ADN não aparece distribuído de forma uniforme ao longo do genoma humano.

Um dos sinais mais intrigantes é a escassez de ADN neandertal no cromossoma X - um dos cromossomas sexuais presentes em cada célula - quando comparada com a quantidade encontrada nos restantes cromossomas (não sexuais).

Durante anos, uma hipótese foi a de que, nessas zonas, as variantes neandertais seriam pouco vantajosas - ou até prejudiciais. Se indivíduos com determinados padrões genéticos tivessem menor probabilidade de sobreviver e ter descendência, a seleção natural poderia ter eliminado essas variantes ao longo do tempo.

Outra possibilidade considerada era mais comportamental: a diferença poderia refletir a forma como as duas populações se misturaram.

O estudo na Science e o “espelho” no genoma dos neandertais

Para esclarecer o enigma, Alexander Platt, geneticista da Universidade da Pensilvânia, e colegas analisaram o genoma neandertal e o ADN humano que se terá infiltrado durante um evento de acasalamento ocorrido há cerca de 250 000 anos. O trabalho foi publicado na quinta-feira na revista Science.

Ao comparar os padrões, a equipa encontrou um “espelho” do que se observa em humanos: havia mais sinal de ADN humano no cromossoma X dos neandertais - precisamente o cromossoma que, nos humanos atuais, mostra menos ADN neandertal do que seria esperado.

Platt explica que a interpretação mais provável está ligada a como os cromossomas sexuais são herdados. Como as fêmeas genéticas têm dois cromossomas X e os machos genéticos têm um X e um Y, em média, dois em cada três cromossomas X numa população são herdados da mãe.

Assim, se ao longo de milhares de anos tiver sido mais comum uma fêmea humana ter descendência com um macho neandertal do que o contrário, então o padrão esperado seria exatamente este: mais ADN humano nos cromossomas X neandertais e menos ADN neandertal no cromossoma X humano.

O que aconteceu, afinal, entre os dois grupos?

O grande ponto de interrogação mantém-se: como se deram, na prática, estes encontros? Terão as mulheres humanas entrado em populações neandertais? Ou teriam os machos neandertais sido atraídos para agrupamentos humanos maiores? Foram interações pacíficas, ambíguas, discretas - ou até violentas?

“Não sei se alguma vez teremos uma resposta definitiva sobre como isto aconteceu, porque não podemos viajar no tempo”, afirmou Xinjun Zhang, especialista em genética de populações da Universidade do Michigan, ao comentar a nova análise.

Ainda assim, Platt considera que os dados apontam para um padrão consistente: sempre que neandertais e humanos modernos procriaram, “houve uma preferência por machos neandertais com fêmeas humanas modernas, e não o inverso”.

Joshua Akey, investigador em genómica evolutiva na Universidade de Princeton que não participou no estudo, defendeu que a equipa “deu passos realmente importantes” para preencher lacunas importantes do puzzle.

Limitações e outras explicações possíveis

O estudo não elimina por completo outras hipóteses. Zhang sublinhou, por exemplo, que também é possível que a descendência de machos humanos com fêmeas neandertais simplesmente não tivesse sobrevivido tão bem - o que, por si só, poderia alterar a distribuição do ADN ao longo do tempo.

Mesmo assim, a explicação mais simples que emerge dos resultados é, também, a mais sugestiva: o padrão observado pode não ser apenas um reflexo de “sobrevivência do mais apto” em sentido estritamente darwinista. Como disse Platt, poderá ser sobretudo consequência de “como interagimos uns com os outros, e de como são a nossa cultura, sociedade e comportamento”.

O que estes resultados mudam (e o que não mudam)

É importante lembrar que a genética consegue indicar tendências populacionais, mas raramente reconstitui histórias individuais com detalhe. Um padrão médio ao longo de longos períodos pode resultar de múltiplos cenários sociais - migrações, alianças entre grupos, assimetrias de poder, ou simples diferenças no tamanho e distribuição das populações.

Além disso, novas amostras de ADN antigo e métodos mais refinados podem ajustar - ou até desafiar - interpretações atuais. Ainda assim, ao ligar a distribuição do ADN neandertal no cromossoma X a possíveis padrões de acasalamento, o estudo reforça a ideia de que a nossa história evolutiva foi moldada não só por pressões ambientais, mas também por dinâmicas sociais entre grupos humanos distintos.

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