Durante décadas assumiu-se que, apesar de ser vital, o coração é um dos poucos tecidos do corpo humano com fraca capacidade de reparar lesões. Investigadores na Austrália observaram agora cardiomiócitos (células do músculo cardíaco) a regenerar de forma espontânea após um enfarte do miocárdio, sugerindo que o órgão tem mais potencial de recuperação do que se pensava.
O que acontece ao coração quando o fluxo sanguíneo falha
Quando algo compromete o fluxo sanguíneo, o coração deixa de receber oxigénio suficiente. Essa privação acaba por matar células cardíacas. Em resposta, o órgão consegue “remendar” a zona danificada, mas fá-lo sobretudo com tecido cicatricial: um material fibroso e pouco elástico que não contrai nem contribui para o batimento.
Como resultado, o coração torna-se menos eficiente. Com o tempo, essas alterações estruturais e funcionais podem aumentar o risco de novos episódios, incluindo outro enfarte e, em casos mais graves, insuficiência cardíaca.
Regeneração do coração após enfarte: dos ratos aos humanos (cardiomiócitos)
Em modelos animais, especialmente em ratinhos, já se tinha observado que os cardiomiócitos conseguem voltar a dividir-se depois de um enfarte do miocárdio, regenerando parcialmente o músculo. No entanto, as células cardíacas humanas pareciam muito menos capazes de retomar essa actividade após uma lesão.
Ainda assim, trabalhos anteriores que acompanharam doentes após cirurgia cardíaca já tinham deixado pistas de que as células do músculo cardíaco poderiam ter alguma capacidade de regeneração após dano.
Como os cientistas observaram tecido cardíaco humano vivo
Neste novo estudo, Robert Hume e colegas analisaram tecido cardíaco humano vivo em duas situações:
- Um coração completo de um dador declarado em morte cerebral
- Amostras recolhidas em doentes durante cirurgia de bypass (revascularização do miocárdio)
A equipa realizou sequenciação de RNA (as “leituras” do DNA usadas para produzir proteínas) e avaliou de perto as proteínas e o metabolismo do tecido.
Os investigadores também descreveram o ambiente de privação de sangue que parece favorecer essa divisão celular intrínseca dos cardiomiócitos, identificando transcritos, proteínas e metabolitos já associados à indução de divisão celular em estudos com roedores.
O que significa esta descoberta - e o que ainda não resolve
De acordo com Robert Hume, cardiologista na Universidade de Sydney e primeiro autor do trabalho, os dados indicam que, embora o coração fique marcado por cicatriz após um enfarte, o órgão consegue gerar novas células musculares - uma observação que abre novas possibilidades de investigação.
Ao mesmo tempo, os autores sublinham que esta regeneração espontânea, por si só, não chega para impedir os efeitos devastadores de um enfarte do miocárdio. O objectivo, a médio prazo, é desenvolver terapias que consigam amplificar a capacidade natural do coração de produzir novas células e, assim, ajudar a regenerar o órgão após o ataque.
Novas terapias regenerativas e a principal causa de morte no mundo
A expectativa é que estas conclusões sirvam de base a terapias regenerativas capazes de melhorar a recuperação do músculo cardíaco e de reduzir a progressão para insuficiência cardíaca - um passo com potencial impacto na principal causa de morte a nível mundial.
Em paralelo com a investigação laboratorial, continua a ser essencial actuar sobre factores que influenciam directamente o risco de enfarte e a recuperação: controlo da tensão arterial, gestão do colesterol, cessação tabágica, actividade física adequada e adesão à medicação prescrita. Mesmo que surjam terapias de regeneração, estas medidas permanecem determinantes para proteger o coração.
Também é importante notar que transformar esta observação em tratamento implica etapas exigentes: confirmar a consistência do fenómeno em diferentes perfis de doentes, perceber quando e como estimular a divisão dos cardiomiócitos sem efeitos indesejados e avaliar a segurança a longo prazo, uma vez que estimular proliferação celular exige controlo rigoroso.
A investigação foi publicada na revista científica Investigação em Circulação.
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