O “segredo” para travar a cárie dentária pode estar, literalmente, dentro da sua boca. Um estudo clínico indica que aumentar os níveis de um aminoácido presente na saliva pode transformar biofilmes bacterianos - normalmente associados a danos - em estruturas mais protetoras.
Porque é que o açúcar favorece as cáries (e o papel dos biofilmes bacterianos)
O açúcar não corrói os dentes de forma direta; o problema é que ele atrai e alimenta microrganismos que vivem na cavidade oral. Ao metabolizarem os açúcares, estas bactérias libertam substâncias ácidas que começam a dissolver o esmalte dentário. Este processo tende a agravar-se quando se formam biofilmes bacterianos nas superfícies dos dentes, criando um ambiente onde a acidez se mantém junto ao esmalte durante mais tempo.
Arginina na saliva: o aminoácido que pode inverter o equilíbrio dos microrganismos
Investigadores da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, observaram uma estratégia para devolver a vantagem ao hospedeiro: a arginina, um aminoácido naturalmente existente na saliva.
Em pessoas com cárie dentária ativa, um tratamento regular com arginina conseguiu reduzir de forma marcada a acidez dos biofilmes, ao alterar a proporção de açúcares na matriz do biofilme e o equilíbrio entre populações bacterianas.
“Os nossos resultados mostraram diferenças na acidez dos biofilmes, sendo que os tratados com arginina ficaram significativamente mais protegidos contra a acidificação causada pelo metabolismo do açúcar”, afirma Yumi Del Rey, microbiologista da Universidade de Aarhus.
Estudos anteriores já tinham apontado para um efeito protetor da arginina contra a cárie dentária, mas grande parte das evidências vinha de experiências em laboratório. O trabalho da Universidade de Aarhus procurou confirmar se o mesmo fenómeno acontece no ambiente real e complexo da boca humana.
Como foi feito o estudo clínico com biofilmes bacterianos
Dez participantes usaram, durante quatro dias, próteses colocadas sobre os dentes inferiores. Estas próteses tinham pequenos painéis de ambos os lados, desenhados para permitir que se formassem biofilmes bacterianos.
Três vezes por dia, as próteses eram retiradas e submetidas a tratamento num dispositivo de imersão:
- Primeiro, os painéis com biofilme eram mergulhados numa solução com 10% de sacarose.
- Depois, um dos lados era tratado com uma solução de arginina.
- O outro lado era mergulhado apenas em água destilada.
Ao fim de quatro dias, as próteses foram removidas e os biofilmes analisados ao detalhe.
“O objetivo foi investigar o impacto do tratamento com arginina na acidez, no tipo de bactérias e na matriz de hidratos de carbono dos biofilmes de doentes com cáries ativas”, explica Sebastian Schlafer, microbiologista da Universidade de Aarhus.
Resultados: pH mais alto, menor acidez e alterações nos açúcares do biofilme
Quando os biofilmes voltaram a ser expostos ao açúcar, os que tinham recebido arginina apresentaram, de forma consistente, valores de pH mais elevados. Um pH mais alto significa um meio menos ácido - e, portanto, menos agressivo para o esmalte.
A equipa investigou então como é que a arginina poderia estar a reduzir a acidez, avaliando quais as bactérias e os açúcares presentes em cada amostra. Nos biofilmes tratados com arginina foram detetados:
- níveis mais baixos de um açúcar chamado fucose;
- e uma concentração de galactose mais deslocada para a superfície externa do biofilme - ou seja, mais longe da superfície do dente.
Mudanças nas bactérias: menos produtoras de ácido, mais metabolizadoras de arginina
Ao analisar o ADN das bactérias presentes, os investigadores verificaram que o tratamento com arginina reduziu de forma significativa uma população específica de bactérias do género Streptococcus associadas à produção de ácido. Em paralelo, observou-se um ligeiro aumento de outras estirpes capazes de metabolizar arginina.
Um ponto relevante é que os efeitos não foram iguais em todas as pessoas. Alguns participantes praticamente não responderam ao tratamento, e os autores não conseguiram ligar esta variabilidade a diferenças claras nas populações microbianas ou no perfil de açúcares.
O que isto pode significar para produtos de higiene oral
Ainda são necessários mais estudos para compreender em detalhe de que forma a arginina altera os biofilmes bacterianos. Mesmo assim, o aminoácido surge como um candidato promissor para ser incorporado em produtos de higiene oral, como pasta dentífrica ou elixir.
A segurança também joga a favor: a arginina ocorre naturalmente na saliva e já é utilizada noutras áreas médicas, incluindo no contexto de problemas como a hipertensão arterial.
Contexto adicional: onde a arginina se encaixa na prevenção da cárie dentária
Mesmo que a arginina venha a ganhar espaço em produtos de higiene oral, ela não substitui medidas bem estabelecidas. A prevenção da cárie dentária continua a depender de hábitos como escovagem eficaz com pasta com flúor, limpeza interdentária e redução da frequência de ingestão de açúcares ao longo do dia, que é um dos fatores que mais influencia a manutenção de um meio ácido junto ao esmalte.
Também importa lembrar que a boca de cada pessoa é um ecossistema distinto. A resposta diferente entre participantes sugere que intervenções “universais” podem ter eficácia variável, pelo que acompanhar sinais precoces de cárie com um médico dentista e ajustar rotinas e produtos ao risco individual continua a ser essencial.
O estudo foi publicado na Revista Internacional de Ciência Oral.
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