Os movimentos das estrelas na Via Láctea denunciam a presença de uma ondulação colossal que se propaga para o exterior - um “eco” desencadeado por um acontecimento de grande escala algures no passado agitado da nossa galáxia.
A conclusão surge de uma nova análise que combina medições da missão Gaia (o observatório espacial de cartografia estelar) com um conjunto independente de estrelas pulsantes. Ao estudar o sobe-e-desce das estrelas nas zonas mais externas do disco galáctico, os astrónomos identificaram padrões compatíveis com uma corrugação em forma de onda.
O que pode ter criado esta ondulação no disco galáctico da Via Láctea
A origem exacta da ondulação continua por determinar, mas uma hipótese forte aponta para um encontro com outra galáxia. Em particular, a galáxia anã de Sagitário, que está actualmente em interacção com a Via Láctea, poderá ter atravessado o disco galáctico e “empurrado” o material estelar e gasoso - de forma semelhante ao que acontece quando uma pedra cai num lago e gera ondas.
Este resultado volta a reforçar uma ideia essencial: a Via Láctea não é um objecto imóvel suspenso no espaço. Pelo contrário, é uma galáxia dinâmica, ainda a “ressoar” de processos passados - e de interacções que, em muitos casos, continuam a decorrer.
“Em conjunto, estes resultados levam-nos a explorar a hipótese de existir uma onda vertical que se estende por uma parte significativa do disco exterior e que se está a afastar do centro galáctico”, escrevem os investigadores.
“Esta onda, detectada em populações estelares jovens, poderá ser sobretudo parte da componente gasosa do disco galáctico, revelada pela cinemática das estrelas jovens, que herdaram os movimentos colectivos do gás a partir do qual nasceram.”
Como a missão Gaia ajudou a reconstruir a arquitectura 3D da Via Láctea
Só nos últimos anos os astrónomos começaram a encaixar as peças da estrutura tridimensional da Via Láctea. Grande parte desse avanço deve-se à Gaia, que passou mais de uma década a mapear, a partir da sua órbita em torno do Sol, as posições 3D das estrelas da galáxia.
Mas o contributo da Gaia não se limitou à localização das estrelas. A missão recolheu também informação sobre a forma como elas se deslocam pela galáxia - dados capazes de expor, por exemplo, vestígios de galáxias já engolidas e interacções gravitacionais em curso que não são evidentes numa observação superficial.
Outra clarificação importante trazida pelos dados é que o disco galáctico da Via Láctea não é uma estrutura calma e plana: nas extremidades, mostra-se deformado e corrugado, um indício plausível de que algo massivo marcou a história da galáxia.
O estudo: populações estelares analisadas e dados usados (DR3)
Para aprofundar este comportamento invulgar, uma equipa liderada por Eloisa Poggio, do Instituto Nacional de Astrofísica de Itália, recorreu a dois tipos de estrelas:
- Cerca de 17 000 estrelas gigantes jovens, até distâncias de aproximadamente 23 000 anos-luz do Sistema Solar;
- Cerca de 3 400 estrelas variáveis do tipo Cefeida, até distâncias de aproximadamente 49 000 anos-luz do Sistema Solar.
Tendo em conta que o disco estelar da Via Láctea mede cerca de 100 000 anos-luz de diâmetro, estas amostras oferecem uma cobertura significativa do disco, incluindo regiões exteriores onde as deformações se tornam mais marcadas.
Em seguida, os investigadores usaram dados da DR3 (a mais recente disponibilização da Gaia à data do trabalho), complementados por outros levantamentos, para determinar como estas estrelas se movimentam no interior da Via Láctea. O foco esteve, em particular, na velocidade vertical - a assinatura cinemática de um disco galáctico a oscilar para cima e para baixo.
Um padrão coerente: cristas e vales como ondas num lago
É aqui que o cenário se torna especialmente revelador. Apesar de serem populações diferentes, ambos os grupos de estrelas exibiram o mesmo padrão vertical coerente, com alternância de cristas e vales, tal como ondulações na superfície da água.
E, tal como num lago, a amplitude das ondulações cresce à medida que nos afastamos do centro galáctico: nas zonas mais externas do disco, as estrelas atingem alturas maiores acima do plano galáctico e descem mais abaixo dele.
“Este comportamento observado é consistente com aquilo que esperaríamos de uma onda”, afirma Poggio.
Possíveis explicações: galáxia anã de Sagitário e a onda de Radcliffe
A equipa não consegue ainda apontar o “epicentro” da onda nem determinar com certeza o evento que a desencadeou. A passagem da galáxia anã de Sagitário é uma possibilidade, mas não a única.
Outra hipótese é uma relação com a onda de Radcliffe, uma estrutura descoberta recentemente que se estende por cerca de 9 000 anos-luz ao longo de um dos braços espirais da Via Láctea. Ainda assim, há diferenças importantes entre os fenómenos:
“No entanto, a onda de Radcliffe é um filamento muito mais pequeno e está localizada numa parte diferente do disco galáctico quando comparada com a onda estudada no nosso trabalho”, explica Poggio. “As duas ondas podem estar relacionadas - ou não. É por isso que gostaríamos de fazer mais investigação.”
Um ponto adicional a considerar é que ondulações deste tipo não são apenas curiosidades geométricas: quando o disco oscila, isso pode influenciar a distribuição do gás interestelar e, consequentemente, afectar onde e quando se formam novas estrelas nas regiões periféricas. Compreender a origem e a evolução desta onda ajuda a reconstituir a cronologia de interacções que moldaram a Via Láctea.
Também é plausível que mais do que um mecanismo esteja a contribuir: além de encontros com galáxias satélite, perturbações gravitacionais de estruturas massivas no halo galáctico podem amplificar deformações e manter o disco em oscilação durante longos períodos. Distinguir estes cenários exige amostras maiores e medições ainda mais precisas.
O que vem a seguir: a DR4 da Gaia
A próxima grande disponibilização de dados da Gaia, a DR4, está prevista para Dezembro de 2026. A equipa pretende regressar a esta “ondulação” com um conjunto muito mais vasto de medições, na esperança de esclarecer definitivamente o que faz a nossa galáxia “vibrar” no céu.
A investigação foi publicada na revista Astronomia e Astrofísica.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário