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O corpo ressuscita células marcadas para morrer, resolvendo um mistério de 50 anos.

Homem com bata de laboratório observa placa de Petri com colónias bacterianas coloridas em laboratório.

Quando um tecido sofre danos graves, as células que conseguem sobreviver podem reagir com uma vaga intensa e localizada de reparação biológica conhecida como proliferação compensatória. Quase 50 anos depois de esta estratégia de sobrevivência ter sido descrita pela primeira vez em larvas de mosca-da-fruta, uma equipa de cientistas conseguiu agora identificar o mecanismo molecular que a sustenta.

A investigação, conduzida por um grupo do Weizmann Institute of Science, em Israel, sugere que compreender ao detalhe como este processo funciona - e, sobretudo, como poderá ser modulado - pode abrir caminho a novas abordagens para reduzir o risco de o cancro voltar após tratamentos como a radioterapia.

Proliferação compensatória em Drosophila melanogaster: o papel das caspases e da resistência à morte

No centro desta descoberta estão as caspases, enzimas tradicionalmente associadas à morte celular programada (o processo pelo qual o organismo elimina células para manter a saúde dos tecidos ou moldar estruturas durante o desenvolvimento). Nos últimos anos, vários estudos têm mostrado que as caspases nem sempre atuam como “executoras”: também participam noutras funções essenciais. Foi precisamente essa faceta menos óbvia que motivou a equipa a investigá-las no contexto da proliferação compensatória.

Para regressar às origens deste fenómeno, os investigadores repetiram o ensaio clássico que levou à sua identificação: expor larvas de mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster) a radiação de dose elevada. Desta vez, porém, a atenção esteve focada com muito mais detalhe na fase de regeneração.

“Propusemo-nos identificar células que carregam no botão de autodestruição, mas que, ainda assim, sobrevivem”, explica a primeira autora, a geneticista molecular Tslil Braun, do Weizmann Institute.

“Para isso, utilizámos um sensor tardio que assinalava células nas quais a caspase iniciadora tinha sido ativada, mas que, apesar disso, sobreviveram à irradiação.”

Duas populações celulares cooperam na regeneração após a radiação

A análise revelou que, depois de um dano por radiação, a regeneração do tecido depende da cooperação entre dois tipos de células sobreviventes.

Um dos grupos é composto por células que, numa fase inicial, ficam marcadas para morrer: ativam uma caspase específica da mosca-da-fruta chamada Dronc. No entanto, em vez de completarem o processo de morte, resistem e passam a multiplicar-se rapidamente para restaurar o tecido danificado. A equipa batizou-as de células ativadoras de Dronc (DARE).

Uma avaliação mais aprofundada mostrou, contudo, que as DARE não operam isoladamente.

“Identificámos outra população de células resistentes à morte, mas, ao contrário das DARE, não apresentavam ativação da caspase iniciadora. Chamámos-lhes células NARE”, afirma Braun.

Embora as NARE não estejam “sinalizadas” para morrer, são recrutadas pelas DARE para participarem na reparação. Além disso, desempenham um papel de regulação, ajudando a travar o processo para evitar uma regeneração excessiva.

Resistência crescente: um paralelo com tumores recorrentes

Um dos aspetos mais relevantes do estudo é que as células sobreviventes DARE - e o próprio tecido que contribuem para reconstruir - tornam-se ainda mais resistentes à morte. Após uma segunda exposição à radiação, revelou-se muito mais difícil eliminá-las, um comportamento que já tinha sido observado anteriormente em tumores cancerígenos.

“Verificámos que os descendentes das células DARE eram excecionalmente resistentes - cerca de sete vezes mais resistentes à morte celular do que as células do tecido original”, explica o geneticista molecular Eli Arama, também do Weizmann Institute.

“Isto pode ajudar a explicar por que razão tumores recorrentes se tornam mais resistentes após a radiação.”

Myo1D: uma proteína motora associada à sobrevivência celular

Os investigadores identificaram ainda uma proteína motora molecular, Myo1D, que parece proteger as células DARE contra a morte. Aqui surge novamente uma ligação à biologia do cancro: considera-se que alguns cancros também podem explorar a Myo1D como forma de manter a sobrevivência celular em ambientes agressivos, como os induzidos por terapias.

Implicações para medicina regenerativa e oncologia

Apesar de estes resultados ainda precisarem de confirmação em tecidos humanos, o facto de a mecânica da proliferação compensatória estar agora descrita com muito mais detalhe aumenta a probabilidade de se encontrarem estratégias para: - reforçar ou induzir este mecanismo quando o objetivo é promover a cicatrização e a reparação de tecidos; - bloquear ou limitar a resposta quando ela pode favorecer a persistência e o reaparecimento de células tumorais.

Um ponto adicional a considerar é que a regeneração eficiente exige equilíbrio: reparar demasiado pouco pode deixar o tecido fragilizado, mas regenerar em excesso pode perturbar a arquitetura e a função normais. Por isso, qualquer futura intervenção terapêutica terá de calibrar não só a intensidade da proliferação compensatória, como também o “travão” fisiológico imposto por populações reguladoras como as NARE.

Do lado clínico, esta linha de investigação também reforça a importância de combinar tratamentos que destroem células (como a radioterapia) com abordagens que impeçam a aquisição de resistência. Se mecanismos semelhantes aos observados em Drosophila melanogaster se confirmarem em humanos, a inibição dirigida de vias associadas à sobrevivência - potencialmente incluindo alvos relacionados com caspases, Myo1D ou sinais de recrutamento entre populações celulares - poderá reduzir a probabilidade de recorrência tumoral.

“Esperamos que, como tantas vezes aconteceu com modelos de mosca, o conhecimento aqui obtido possa ser traduzido para uma compreensão dos mecanismos que equilibram o crescimento e conferem resistência à morte celular em tecidos humanos”, afirma Arama.

“Os resultados também apontam para novas formas de acelerarmos a regeneração benéfica de tecido saudável após lesão.”

A investigação foi publicada na Nature Communications.

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