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Vacinar rapazes contra o HPV pode eliminar o cancro do colo do útero.

Criança a receber uma vacina no braço com o apoio de uma mulher num consultório médico.

A cobertura vacinal contra o vírus do papiloma humano (HPV) entre rapazes continua aquém do necessário e, em alguns países, essa falha pode estar a comprometer o objectivo de eliminar o cancro do colo do útero.

Investigadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, defendem que aumentar a vacinação de rapazes com a vacina Gardasil poderá poupar muitas vidas ao reduzir vários cancros associados ao HPV, incluindo cancro do colo do útero, cancro anal, cancro do pénis e cancros orais.

O que mostra o novo modelo matemático na eliminação do cancro do colo do útero

A equipa desenvolveu um novo modelo matemático e ajustou-o com base em dados oncológicos da Coreia do Sul. O resultado indica que, num país onde a vacinação contra o HPV tem sido dirigida sobretudo às raparigas, a cobertura actual pode não chegar para criar imunidade de grupo contra as estirpes do vírus que mais contribuem para o aparecimento de cancro.

Nas simulações, a inclusão dos rapazes no programa muda o equilíbrio: vacinar rapazes reduz a necessidade de atingir percentagens quase totais entre as raparigas para se aproximar de uma eliminação sustentada.

“Vacinar rapazes diminui a pressão de ter de vacinar uma proporção muito elevada de mulheres. Torna a eliminação mais realisticamente alcançável”, afirma o matemático Abba Gumel, autor sénior do trabalho.

Com a expansão do programa na Coreia do Sul para incluir rapazes, as projecções apontam que o país poderia eliminar os cancros relacionados com o HPV em cerca de 70 anos.

Vacinação contra o HPV em rapazes: que percentagens podem fazer diferença

No cenário actual da Coreia do Sul - com vacinação centrada nas raparigas - o modelo estima que seria preciso imunizar 99% das jovens para alcançar imunidade de grupo.

No entanto, a cobertura real entre raparigas está em torno de 88%, o que significa que o HPV e os cancros associados ainda conseguem manter-se na população.

As simulações mostram alternativas mais atingíveis quando os rapazes são incluídos:

  • Se 65% dos rapazes forem vacinados e a taxa actual das raparigas se mantiver, o país poderá atingir imunidade de grupo.
  • Se a cobertura entre raparigas descer ligeiramente para 80%, a eliminação do cancro do colo do útero continuaria a ser possível caso 80% dos rapazes também fossem imunizados.

O modelo, apesar de calibrado com dados sul-coreanos, pode igualmente servir para avaliar a eficácia de programas noutros países. O mesmo autor antecipa que, num país como os Estados Unidos, uma cobertura de aproximadamente 70% entre homens e mulheres poderia ser suficiente para atingir imunidade de grupo.

Porque é que o HPV exige estratégias inclusivas

O HPV é um vírus extremamente contagioso, capaz de se transmitir por via sexual e também através do contacto pele com pele ou por fluidos. Está por detrás de praticamente todos os casos de cancro do colo do útero, doença que provoca mais de 300 000 mortes por ano a nível mundial.

A primeira vacina contra o HPV foi licenciada em 2006 e o lançamento inicial focou-se na protecção contra estirpes de alto risco associadas ao cancro do colo do útero. Numa fase precoce, a comunicação e o marketing posicionaram a vacinação sobretudo como uma medida preventiva “para mulheres”. E, de facto, os resultados foram impressionantes: em algumas regiões, os casos de cancro do colo do útero caíram quase 90% nas últimas duas décadas.

Ainda assim, há ganhos adicionais por concretizar - e não apenas nas mulheres. Vários investigadores defendem que a persistente tendência para uma abordagem enviesada pelo género nas políticas e nas mensagens de saúde pública deve ser corrigida para acelerar a redução do cancro relacionado com o HPV.

Hoje sabe-se que homens e mulheres podem desenvolver cancros associados ao HPV, incluindo cancro anal, cancro do pénis, cancro vaginal e cancros da cabeça e pescoço. Apesar disso, em muitos países, muito menos rapazes estão a ser vacinados, criando uma discrepância marcada entre sexos que os responsáveis de saúde pública pretendem reduzir.

Na Coreia do Sul, o estudo também chama a atenção para a evolução recente: nos últimos 20 anos, os casos de cancro masculino relacionado com o HPV triplicaram. Aumentar a vacinação entre rapazes poderá, por isso, evitar mortes futuras associadas a estes tumores.

Quem deve ser vacinado e o que se sabe sobre idades mais tardias

Tendo em conta estes resultados, os autores defendem que os rapazes entre 12 e 17 anos sejam vacinados em simultâneo com raparigas, e que também se vacinem mulheres mais velhas que não tenham recebido a vacina quando eram mais novas.

Evidência recente sugere ainda que a vacinação em idades mais avançadas pode continuar a oferecer alguma protecção contra um vírus tão transmissível, mesmo que o benefício máximo ocorra quando a imunização é feita antes do início da vida sexual.

Para lá da vacina: rastreio e comunicação como aceleradores do impacto

Mesmo com uma estratégia vacinal robusta, a eliminação do cancro do colo do útero depende também de rastreios organizados e de acesso rápido a diagnóstico e tratamento de lesões pré-cancerosas. A combinação de vacinação e rastreio aumenta a probabilidade de reduzir tanto a incidência como a mortalidade, sobretudo em populações onde a cobertura vacinal não é uniforme.

Outro factor decisivo é a qualidade da comunicação em saúde. Mensagens claras - que expliquem que o HPV afecta ambos os sexos e que a vacinação protege a pessoa vacinada e contribui para a protecção comunitária - ajudam a combater hesitações, mitos e barreiras culturais, aumentando a adesão, em particular entre adolescentes e famílias.

Um objectivo global e o papel dos rapazes

Segundo algumas estimativas, se o mundo conseguir alcançar uma cobertura ampla de vacinação contra o HPV e, em paralelo, expandir os rastreios do colo do útero, poderá ser possível eliminar o cancro do colo do útero em 149 dos 181 países até ao virar do século.

Aumentar a vacinação entre rapazes poderá ser um dos elementos-chave para tornar esse cenário exequível.

“Não precisamos de estar a perder 350 000 pessoas por ano, em todo o mundo, para o cancro do colo do útero”, afirma Gumel. “Podemos ver um fim para o HPV e para os cancros relacionados com o HPV se melhorarmos a cobertura vacinal.”

O estudo foi publicado no Boletim de Biologia Matemática.

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